Em meio à guerra, ela continua jogando: o futebol como resistência na Ucrânia

 

Ela tinha apenas 9 anos quando calçou as chuteiras pela primeira vez. Entre meninos, numa cidade onde o futebol feminino ainda era um campo a ser desbravado, o que era para ser uma experiência casual virou paixão arrebatadora. Não havia time feminino. Não havia estrutura. Mas havia vontade. E foi com ela que essa jovem ucraniana deu seus primeiros passos em direção a algo muito maior: jogar futebol como quem escolhe seguir viva.

Hoje, aos 19 anos, ela é atleta do Pantery, um dos clubes mais importantes do país. Mas sua trajetória está longe de ser comum. É uma história que atravessa obstáculos que vão além das barreiras do esporte: são os bombardeios, as sirenes de alerta aéreo, o medo constante e a guerra que molda o dia a dia da Ucrânia desde 2022.

Antes disso, ela vivia em Kharkiv, onde foi acolhida por uma academia esportiva após ser descoberta por treinadores que reconheceram seu talento. Ali, encontrou uma rotina intensa e promissora: dois treinos por dia, alimentação adequada e espaço para os estudos. Era o cenário ideal para que o sonho de uma carreira no futebol florescesse. Mas a guerra estourou, e Kharkiv se tornou um dos alvos mais frequentes dos ataques russos.

Com os bombardeios, vieram as mudanças. Ela precisou deixar a cidade e mudar de clube. Jogar futebol passou a significar algo diferente: não apenas correr atrás da bola, mas correr para abrigos quando os alarmes soam. As partidas são interrompidas. Os treinos, remarcados ou cancelados. Muitas vezes, o jogo começa com atraso porque a prioridade é sobreviver.

Mesmo assim, ela segue. Porque desistir nunca foi uma opção.

“Por causa da situação atual no país, tornou-se mais difícil sonhar com uma carreira profissional, mas tudo é possível se você trabalhar todos os dias e seguir em direção ao seu sonho”, diz ela.

E não está sozinha. A família, embora preocupada a cada deslocamento para cidades ameaçadas, acompanha de perto todos os passos da filha. Assistem aos jogos, seguem as notícias, perguntam sobre os treinos. Esse apoio diário é a base emocional que a sustenta.

“Minha família entende o meu desejo de jogar. Eles assistem a todos os meus jogos e acompanham todas as notícias do nosso futebol.”

Ela é parte de uma geração que insiste em sonhar mesmo quando tudo ao redor tenta apagar qualquer esperança. Uma geração de meninas que, mesmo sem infraestrutura, campos adequados ou apoio profissional, continua treinando. Continua jogando. Porque para elas, o futebol é mais do que esporte: é resistência, identidade e força.

“Dentro de mim ainda vive aquela menina que um dia se apaixonou de todo o coração pelo futebol. Tenho objetivos e sonhos, e já não existe outro caminho.”

Em um país que luta diariamente por sua liberdade e sobrevivência, ela escolhe lutar com as armas que conhece: a bola nos pés, o suor no rosto e o coração no jogo. E isso, por si só, já é uma vitória.

Crédito final: relato da atleta

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