Havia cinco cadeiras naquela mesa, e cada uma delas carregava um pedaço diferente do poder que decide o destino de Canoas. De um lado, o ministério que controla os cordões da bolsa federal do turismo. Do outro, o prefeito que administra a cidade no dia a dia, o vice que soma força ao mandato, o deputado que transita em Brasília com a mesma naturalidade com que outros transitam pela avenida Guilherme Schell, e o vereador que representa a Câmara. Não é todo dia que essas cinco esferas se sentam à mesma mesa sem a rigidez protocolar que costuma esvaziar esse tipo de encontro. E é exatamente aí que mora o valor do que aconteceu.
Canoas carrega, há anos, um ativo que poucas cidades da região metropolitana possuem: estrutura para receber grandes públicos. Centro de eventos, capacidade hoteleira em expansão, localização estratégica na confluência de rodovias que ligam a Grande Porto Alegre ao interior do estado. O que faltava, historicamente, não era vocação. Era a costura política capaz de transformar essa vocação em prioridade orçamentária dentro de um ministério que, goste-se ou não do governo de plantão, é quem define para onde vai o dinheiro federal do turismo. Um jantar bem articulado, com as pessoas certas na mesa, é precisamente o tipo de gesto capaz de destravar esse caminho.
Gustavo Feliciano não precisava estar em Canoas. Ministros têm agenda nacional e cento e poucos municípios gaúchos disputando atenção. O fato de ele ter reservado tempo para sentar com o núcleo político local, ouvir sobre a cancha de tiro de laço e a força da Semana Farroupilha, sobre a estrutura para eventos culturais e esportivos, é um sinal que merece ser lido com clareza: Canoas entrou no radar. E entrar no radar, para quem acompanha como funciona a distribuição de recursos federais, vale mais do que qualquer anúncio isolado de obra. É o tipo de relação que, sustentada, se converte em edital, em emenda, em programa de fomento ao longo dos próximos meses.
Há quem torça o nariz para encontros como esse, sob a alegação de que só foto não paga conta pública. É um ceticismo compreensível, mas que erra o alvo quando aplicado aqui. Investimento federal não cai do céu; ele nasce de relação construída, de presença, de insistência de quem representa o município nos corredores de Brasília. Luiz Carlos Busato fez exatamente esse trabalho ao levar o ministro à mesa. Rodrigo Busato fez o trabalho de traduzir, na cadeira de vice-prefeito, o que esse turismo significa em termos concretos: hotelaria, restaurante, comércio de rua movimentado nos fins de semana de grandes eventos. E Airton Souza, como chefe do Executivo, carrega agora a responsabilidade de transformar a conversa em protocolo, em projeto, em pleito formal.
Dario Silveira, com sua defesa em relação a cancha de tiro de laço e a tradição farroupilha, lembrou algo que costuma escapar do discurso oficial: turismo de eventos não se resume a grandes arenas e feiras de negócio. Também é cultura viva, identidade gaúcha, patrimônio que já pulsa em Canoas todos os anos sem depender de anúncio federal para existir. Colocar isso na mesa ao lado do ministro foi acerto do vereador: mostrou que o pleito da cidade não nasce do zero, nasce de algo que já funciona e que agora busca escala.
Resta, evidentemente, o trabalho que vem depois do jantar. Boa articulação abre porta; não constrói prédio. Caberá ao núcleo político de Canoas transformar essa proximidade em pleito formal, em cronograma, em recurso efetivamente empenhado. Esse é o critério que deve acompanhar o episódio daqui para frente: não a boa vontade demonstrada à mesa, mas a capacidade de convertê-la em resultado que apareça no orçamento do ano que vem. Por ora, o que ficou registrado é uma cidade que soube se colocar, na hora certa, diante de quem decide. Não é pouco. É, de fato, o tipo de oportunidade que separa municípios que crescem daqueles que apenas esperam.





