Existe um tipo de cidade que se acostuma a viver do remendo. Tapa-se o buraco que reabre no mês seguinte, promete-se a praça que nunca sai do papel, adia-se a obra de saúde até que ela se torne, ela mesma, item de campanha eleitoral e não de gestão. Canoas, por longos anos, foi essa cidade, e não há vereador, secretário ou morador de bairro periférico que discorde disso em conversa sincera. Pois nesta quinta-feira, no Auditório Sady Schwitz, algo mudou de registro: não se anunciou mais uma promessa, assinou-se um contrato. R$ 150 milhões, recursos reais, junto a uma instituição financeira real, para obras que têm nome, endereço e finalidade. A diferença entre prometer e contratar é a diferença entre o desejo e a obrigação, e é exatamente essa obrigação que Canoas precisa cobrar de si mesma a partir de agora.
Convém, antes de tudo, entender o que está em jogo, porque não se trata de uma lista genérica de bondades municipais. Fala-se em recuperação de ruas, sim, mas também na implantação da Rua Inteligente, um projeto que tenta trazer para Canoas uma linguagem de modernização urbana que outras cidades da região já experimentam há anos. Fala-se em novas praças, esses espaços que parecem triviais até que se lembre de que é neles que uma cidade aprende a conviver consigo mesma, onde criança brinca, idoso caminha, vizinho reconhece vizinho. E fala-se, sobretudo, no Certea, o Centro de Referência em Transtorno do Espectro Autista, que não é item de prateleira, é resposta a uma demanda que famílias inteiras carregam sozinhas há tempo demais, sem estrutura pública que as ampare.
Há, é claro, os que torcem o nariz para qualquer financiamento municipal, como se contrair dívida fosse sinônimo automático de irresponsabilidade fiscal, esquecendo-se, convenientemente, de que existe dívida que empobrece e existe dívida que constrói, e que a diferença entre as duas se mede não na assinatura do contrato, mas no destino de cada centavo. A esses, vale lembrar que cidade nenhuma se moderniza economizando em silêncio, e que a estagnação também tem custo, só que ele não aparece em nenhuma planilha, aparece na rua esburacada, no posto de saúde sucateado, na criança autista sem centro de referência.
Dito isso, e aqui o texto muda de tom, porque elogio sem cobrança é publicidade, não é análise, cabe registrar a pergunta que o auditório não respondeu: quem vai fiscalizar a execução? Cento e cinquenta milhões de reais, distribuídos por dezenas de ruas e diferentes bairros, exigem transparência que vá muito além da cerimônia de assinatura. A população de Canoas tem o direito de saber, obra por obra, prazo por prazo, quanto já foi executado e quanto ainda falta, e esse direito não pode depender da boa vontade de gestão alguma, precisa ser mecanismo, precisa ser rotina, precisa ser prestação de contas acessível ao morador que não lê edital.
O prefeito Airton Souza chamou o momento de marco. Que seja mesmo, mas que o marco não fique apenas na fotografia do auditório, e sim nas ruas transformadas, nas praças entregues, no Certea funcionando com equipe e estrutura de verdade. Canoas já sabe prometer, sempre soube. O que a cidade precisa provar agora, com este contrato nas mãos, é que também sabe cumprir.






