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“Caju, Meu Amigo”: quando a sensibilidade vira oportunismo e a dor alheia é tratada com desprezo

Exibido na segunda-feira (19) na Tela Quente, da TV Globo, Caju, Meu Amigo tenta se apoiar em uma das maiores tragédias recentes do país — a enchente que devastou o Rio Grande do Sul — para contar uma história “emocionante” sobre um cachorro perdido. O problema é que, ao fazer isso, o filme escancara uma abordagem rasa, desrespeitosa e profundamente desconectada da realidade das vítimas.

Desde o início, o roteiro já demonstra sua fragilidade ao tratar a enchente como um pano de fundo genérico. O desastre não atingiu apenas Porto Alegre, como o filme sugere de forma conveniente, mas praticamente todo o estado. Na primeira parte, até há uma tentativa de mostrar impactos diversos: pessoas que perderam empregos em outros estados por não conseguirem retornar ao trabalho, famílias desestruturadas, vidas interrompidas. Mas essa complexidade logo é abandonada.

A personagem interpretada por Vitória Strada é o maior símbolo dessa desconexão. Sua “grande perda” foi o emprego. Ela não perdeu a casa, não perdeu familiares, não perdeu tudo o que construiu. Um ano depois, já está plenamente reinserida no mercado de trabalho e ainda adota um novo cachorro em uma ONG. O roteiro tenta vender isso como resiliência, mas soa como privilégio romantizado.

O ponto mais chocante do filme — e impossível de ignorar — ocorre no primeiro encontro entre a personagem de Strada e a verdadeira tutora de Caju: uma mulher que perdeu a casa, a mãe e o próprio cachorro na enchente. Diante de alguém que literalmente lutou para sobreviver, a primeira pergunta que o roteiro coloca na boca da protagonista é: “Por que a senhora não pegou o Caju?”

É nesse momento que o filme implode qualquer pretensão de sensibilidade. A fala é cruel, violenta e desumana. Parte de uma personagem que praticamente não perdeu nada e que se permite julgar quem teve que escolher entre viver ou morrer. É um retrato assustador de elitismo emocional travestido de empatia.

Ao longo da narrativa, essa postura não muda. A protagonista demonstra pouco ou nenhum respeito pela dor das vítimas reais da tragédia. Mesmo quando é levada até a antiga casa da mulher — agora vazia, destruída e coberta de lama — não há impacto, não há reflexão, não há humanidade. Apenas indiferença.

O roteiro atinge seu ápice de absurdo quando Caju foge e é encontrado na casa de uma criança traumatizada pela enchente, que encontra algum conforto no animal. Ainda assim, o filme insiste em reduzir tudo a uma disputa afetiva pelo cachorro, ignorando o sofrimento humano ao redor.

O desfecho é a síntese de tudo que há de errado: uma “guarda compartilhada” entre três pessoas, como se isso resolvesse traumas, perdas irreparáveis e desigualdades gritantes. A mensagem implícita é perturbadora: segundo o texto de Bruno Carboni, o cachorro parece ter mais valor narrativo — e moral — do que as pessoas.

Caju, Meu Amigo não é apenas um filme ruim. É um filme irresponsável. Usa uma tragédia real como gatilho emocional barato, banaliza o sofrimento das vítimas e ainda transforma a ignorância em protagonista. No fim, não fala sobre solidariedade, reconstrução ou empatia — fala sobre como perdemos a capacidade de enxergar o outro.

Sem exagero: é um dos piores filmes já exibidos pela emissora. Não pela falta de emoção, mas pela completa ausência de humanidade.

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Leilane Beck
Leilane Beckhttp://pensereal.com
Jornalista independente, baseada em evidências, múltiplas fontes e contexto histórico.
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