A “caixa-preta” de Cachoeirinha está sendo aberta. E, quando se abre caixa-preta, não é para “perseguir” ninguém — é para entender o que aconteceu, quanto custou e quem deixou a cidade vulnerável. Transparência não é vingança: é obrigação. E a população tem o direito de saber o que estão encontrando nos levantamentos.
O fato da vez é daqueles que não admitem firula: por perda de prazos em prestações de contas, o município agora corre o risco de ter de devolver cerca de R$ 550 mil em recursos recebidos do Governo do Estado. A conta vem com um “bônus” bem brasileiro: se não resolver, Cachoeirinha pode ser inscrita no Cadin (cadastro de inadimplência), o que na prática pode travar novos repasses e convênios. Ou seja: além de perder dinheiro, a cidade pode perder futuro.
E aí a gente entra naquele ponto em que a política adora se esconder atrás de palavras bonitas: “foi falha”, “foi desencontro”, “foi burocracia”. Não. É o básico do básico: prazo é prazo. Prestação de contas não é “detalhe técnico”; é a senha para continuar recebendo investimento. Quando a gestão erra nisso, não “erra contra o papel”. Erra contra a cidade.
O caso se encaixa num padrão que os levantamentos começam a desenhar: recurso que chega, mas não vira benefício; oportunidade que existe, mas não vira projeto; e um município que fica sujeito a punição porque alguém decidiu que organização era opcional.
E tem um capítulo ainda mais indigesto: enchentes. Passado mais de um ano e meio dos eventos que castigaram Cachoeirinha, o governo do ex-prefeito Cristian teria deixado a cidade sem apresentar projeto estruturado ao Estado para combate e prevenção, mesmo com a existência de recursos para essa finalidade. Enquanto outros municípios correm atrás de plano, obra, parceria e proteção, Cachoeirinha fica no modo “depois a gente vê”. E enchente não espera “depois”.
Aqui não se trata de torcida. Nem de “narrativa”. Nem de caça às bruxas. Trata-se do que é verificável: prazos perdidos, recursos desperdiçados, risco institucional criado. O tipo de coisa que não aparece em palanque, mas aparece no extrato — e, mais cedo ou mais tarde, na vida de quem mora aqui.
Se a caixa-preta está sendo aberta, ótimo. Que abram. Que publiquem. Que expliquem. Que apontem responsabilidades. Porque, no fim, a pergunta que importa é simples e brutal: por que Cachoeirinha teria que devolver dinheiro e correr risco de bloqueio de repasses por falta de gestão? Quem paga essa conta não é ex-prefeito. É a cidade.





