Por mais que se tente evitar palavras duras, há momentos em que o jornalismo não pode se dar ao luxo do eufemismo. O que se viu — ou melhor, o que se cheira — nas ruas de Cachoeirinha, no Rio Grande do Sul, é a materialização de um colapso administrativo. Uma cidade mergulhada no lixo, literalmente. Um vexame para qualquer cidadão minimamente civilizado. E não, isso não é figura de linguagem. É a cidade suja, abandonada, fétida, entregue à própria sorte.
O ex-prefeito Cristian Wasem (MDB), recém-impeachmado, e seu vice, João Paulo Martins (PP), deixaram não apenas uma prefeitura, mas uma cratera moral e administrativa. Foram embora — ou melhor, foram retirados — deixando para trás pilhas de lixo, containers transbordando, o odor da negligência e o retrato mais grotesco de uma política que trata o bem público como coisa de ninguém.
Em uma democracia funcional, espera-se que o mínimo seja feito. E o mínimo, convenhamos, é recolher o lixo. Não se está pedindo aqui por um hospital de ponta, nem uma revolução urbana. Estamos falando do básico: impedir que moscas, ratos e urubus se tornem novos moradores permanentes da cidade. E nem isso a gestão Cristian foi capaz de garantir.
Desde antes do Natal, a cidade assiste a uma novela malcheirosa, com sacolas plásticas rasgadas nas calçadas, contêineres lotados e uma população largada à própria sorte. Não se trata de um episódio pontual. Trata-se da ponta visível de uma montanha de desmandos, desleixos e descompromissos.
Se o lixo espalhado nas ruas choca o olfato, a falta de transparência fere o juízo. Primeiro, não se explicava o motivo da interrupção do serviço. Depois, dizia-se que era um problema técnico, depois orçamentário, depois… dívida. Uma sequência de recuos, contradições e desculpas esfarrapadas. O governo municipal, ao que tudo indica, operava no improviso — ou pior, no escuro.
Nada se sustenta. Nem a limpeza, nem a palavra oficial. Uma gestão que não dá satisfações honestas à população é uma gestão que perdeu completamente o vínculo com a democracia.
Curiosamente, o impeachment do prefeito não se deu diretamente pela tragédia sanitária. Foi por suspeitas de contratação sem licitação, direcionamento de serviços para aliados políticos e o velho truque de empurrar com a barriga a contribuição patronal ao instituto de previdência municipal. Um enredo tão previsível quanto nauseante.
Fala-se ainda em merendeiras terceirizadas sem receber — ou seja, quem alimenta nossas crianças foi deixado sem o próprio sustento. É um acinte. Um tapa na cara de qualquer trabalhador honesto. A cidade fede, mas a política fede mais.
Agora, sob nova gestão, a cidade tenta respirar. Literalmente. A nova prefeita — ainda sem nome citado aqui, pois o foco é o desastre que ficou — começa a tatear entre escombros e sacos pretos. Tem pressa, como é justo. Tem urgência, como é necessário. Antes da sexta-feira, dizem, já se esperam caminhões nas ruas. Que venham.
Mas que ninguém se iluda: recolher o lixo será a parte mais fácil. Difícil mesmo será desinfetar a máquina pública de uma cultura política que trata a cidade como curral e a administração como se fosse balcão de negócios para afilhados.
Cachoeirinha merece mais. Merece limpeza, dignidade, e sobretudo, respeito. O ex-prefeito Cristian e seu grupo político deixaram um rastro que não será esquecido tão cedo. O lixo que hoje se vê nas ruas é apenas o símbolo visível de uma decomposição maior — a de uma gestão que falhou miseravelmente em tudo o que deveria cumprir.
O impeachment foi necessário. Tardio, mas necessário. Agora, que se recolha o lixo — todo ele. Nas ruas e nos bastidores do poder.
Foto: Reprodução Redes Sociais



