BBB: uma dinâmica grupal além da casa

O BBB é um espelho multifacetado — incômodo — de representações, representatividades e sentimentos da sociedade do espetáculo e de nossa nação, com suas verdades, mentiras, sexo, dinheiro, videoclipes, ideologias, sonhos e afetos. Gostando ou não desse reality show, a maioria das pessoas não é indiferente a ele, diante de um “paredão” que permanentemente vivemos. Vamos a um “sincerão”?

Particularmente, oscilo entre não gostar e acompanhar o programa com o prazer do psicólogo e psicanalista que estuda o comportamento humano em grupo. Mais chato que o BBB são os ódios e as subestimações da inteligência daqueles que o acompanham. Há os que argumentam que tudo “é carta marcada”, com um “script pré-estabelecido”.

Acho que há exagero nisso, embora, nas entrevistas de escolha dos participantes, seja relevante que a produção avalie o carisma e o potencial para “tretas” das personalidades — sejam elas novas ou veteranas, já midiáticas. Se algo é roteirizado, o prescritivo tende a ceder às pressões emocionais. Não há como os participantes ficarem decorando textos, ensaios e atuações de conflitos, com tudo acontecendo ao vivo.

No começo, torci, como ativista LGBT+, pelo casal gay Marcelo e Breno, que parecia destinado a seguir também fora da casa, protagonizando o primeiro beijo do BBB 26, no clima sensual do show de Anitta. Depois, sem muito entusiasmo duradouro, considerei os bissexuais Juliano e a atrapalhada Samira.

Fui ficando ciente de minhas antipatias, inclusive pela eliminada com quase 95% dos votos, Solange Couto, de quem eu era fã como atriz. Mas “não é brinquedo, não” seu discurso desqualificador: da Bolsa Família como causa de evasão escolar; da origem de Ana Paula e de seu modo de vestir, chamado por ela de “de prostituta”; além de vários comentários preconceituosos sobre identidade de gênero, marcando seu alinhamento com o grupo reacionário.

Aos poucos, procurei fugir da superficialidade das impressões que o vitorioso “trio eterno” me causou ao longo desta edição.

Juliano Floss, de 21 anos, natural de Pinhalzinho, Santa Catarina, foi um garotão que venceu suas inseguranças. Pela resistência em uma prova de 13 horas, foi merecedor de estar na final e de minha simpatia, inclusive por ser natural de uma terra mega-bolsonarista sem ter ficado próximo de seus representantes. Floss vai seguir flutuando e brilhando como influencer e bailarino, com casa própria e bem motorizado.

Milena se autodefiniu: “Eu sou confusão.” Ser uma flatulenta assumida, que solta pum na cara de adversário, fez com que eu não pudesse torcer por ela, pois se trata de um ato nojento. Além disso, oferecer suco com lixo de tempero denota uma incapacidade simbólica de maior confronto, tendo Ana Paula como porta-voz para isso. Porém, Milena era disposta a manter a limpeza e a servir o grupo. Acho que não podemos reduzi-la apenas a uma pessoa relaxada. Sua falta de filtro também atraiu simpatias, em um contexto recente no qual tivemos modelos e “mitos” instituídos falando barbaridades. Que Tia Milena, como cuidadora e recreacionista, passe a ser um melhor exemplo.

Curiosamente, a vice-campeã do BBB 26 vive em Teófilo Otoni, em Minas Gerais, capital mundial das pedras preciosas. Que possa ir se lapidando, com o reconhecimento de já ser muito preciosa. Ela sai vitoriosa, com um apartamento avaliado em R$ 270 mil e mais um total em dinheiro de R$ 180 mil, tendo salvado seu narcisismo com o cumprimento de um objetivo: não ser esquecida.

Ana Paula Renault, ainda que eu também a achasse chatinha e marrenta, foi ganhando pontos pela autenticidade à esquerda e por peitar os machões bolsonaristas, principalmente o “agro cowboy”. Ainda que desdenhasse de Jonas, a quem chamava de “quinta série”, talvez não o recusasse para uns amassos.

A vencedora foi se revelando uma estrategista firme, inteligente, muito carismática, sincera e afetiva com os pares formados. Mesmo quando tinha momentos de choro, não fazia a linha “coitadinha”. Sem medo de ser “a bruxa” ou “a cobra venenosa”, manteve-se focada na vitória, superando a eliminação por agressão ocorrida há dez anos.

“Olha ela”, que seguiu até o fim, mesmo com a notícia da morte paterna. Seu afeto pelo pai, que foi cúmplice da ditadura, conta pontos por ela não ter se identificado ideologicamente com ele, sem deixar de amá-lo. Isso tem sido um desafio em relação aos nossos afetos. Sempre achei que o luto pode ser mais bem elaborado quando nossa libido é realocada no trabalho. Fiz isso quando me despedi de meus pais, que partiram juntos.

Junto a Tadeu Schmidt, que perdeu o irmão Oscar, Ana Paula protagonizou um raro momento não protocolar, emocionante, de identificação com a dor de uma grande perda, com garra e de “mãos dadas” nas grandes lutas e lutos.

Ana Paula marcou “colecionadores” identificados com sua defesa social, como a redução da jornada 6×1 e uma reforma tributária justa para o povo. Venceu com quase 80% dos votos, levando-nos a hipotetizar que há um novo e progressista público de espectadores do reality show que, até então, não tinha voz posicionada à esquerda.

Os participantes do BBB sempre reafirmam que foram se transformando, percebendo-se novas pessoas ao longo do percurso. No viés da psicanálise lacaniana, à nossa imagem no “espelho”, atravessada pelos olhares das alteridades, vamos acrescentando identificações. O programa, cuja dinâmica inclui um contingente de milhões de pessoas, tem um peso que acelera tudo isso, nos três meses de intensa submissão aos múltiplos olhares.

 

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Gaio Fontella
Gaio Fontellahttps://realnews.com.br/category/opiniao/blog-do-gaio/
Gaio Fontella – Psicólogo e psicanalista, graduado e pós-graduado pela UFRGS. É comentarista e produtor do canal Café com Análise, no YouTube, e atua como coordenador da ONG Desafios, em Porto Alegre.

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