Ontem, vi nas redes sociais um comentário de Marcos Mion sobre o motivo pelo qual não costuma levar o filho, Romeo, de 21 anos, em viagens. Segundo Mion, a escolha estaria relacionada às mudanças de rotina provocadas por deslocamentos, escalas, trocas de hotéis e toda a imprevisibilidade que uma viagem pode envolver — situações que podem ser especialmente difíceis para algumas pessoas autistas.
A preocupação é compreensível. Famílias de pessoas autistas conhecem de perto os desafios provocados pela quebra de rotina. Mudanças inesperadas podem gerar ansiedade, insegurança e até crises. Cada pessoa autista tem suas próprias características, necessidades e limites, e isso precisa ser respeitado.
Mas existe também outro lado dessa discussão que merece ser colocado na mesa.
Muitos pais enfrentam exatamente essas dificuldades e, ainda assim, encontram maneiras de viajar com seus filhos. Não significa simplesmente colocar a criança ou o adulto dentro de um avião e esperar que tudo dê certo. Existe preparação.
A viagem pode ser explicada antecipadamente, passo a passo: onde a pessoa vai ficar, como será o deslocamento, o que acontecerá no aeroporto, quanto tempo durará o voo, quando haverá troca de hotel e quais serão as atividades previstas. Fotografias, vídeos, mapas, histórias sociais e uma rotina visual podem ajudar a tornar aquilo que é desconhecido em algo mais previsível.
É claro que nem sempre funciona. E não existe uma fórmula universal para o autismo.
É justamente por isso que a fala sobre Romeo me provocou uma reflexão: até que ponto a tentativa de evitar o desconforto pode acabar afastando também experiências que poderiam ser prazerosas?
Não conheço pessoalmente a rotina de Romeo, seus limites ou as orientações específicas de seus terapeutas. Por isso, seria irresponsável afirmar que ele deveria viajar ou que Mion está errado ao decidir não levá-lo. Pais e profissionais que acompanham uma pessoa diariamente certamente conhecem detalhes que quem está de fora não conhece.
Mas também acredito que pessoas autistas não deveriam ser definidas apenas por aquilo que supostamente não conseguem fazer.
Conheço pessoas autistas com necessidades semelhantes que viajam, frequentam diferentes lugares, participam de atividades e experimentam situações novas. Em muitos desses casos, existe uma preparação cuidadosa antes de cada experiência.
Talvez a pergunta não seja simplesmente: “Ele consegue viajar?”
Talvez seja: “O que podemos fazer para que ele consiga viajar?”
Essa diferença de perspectiva é importante.
Marcos Mion tem um papel relevante ao falar publicamente sobre autismo e ao levar o tema para a televisão e para as redes sociais. Ao compartilhar sua experiência como pai, ele ajuda a ampliar uma discussão que durante muito tempo ficou escondida dentro de muitas famílias.
Mas justamente por ter essa visibilidade, suas falas também precisam ser analisadas com cuidado.
O autismo é um espectro. O que funciona para Romeo pode não funcionar para outra pessoa — e o que é difícil para Romeo também não significa que seja impossível para outro autista.
Por isso, quando falamos sobre inclusão, talvez seja necessário ir além de adaptar o mundo para que a pessoa autista nunca enfrente mudanças. Inclusão também pode significar oferecer ferramentas, preparação, suporte e segurança para que ela possa experimentar o mundo dentro de suas possibilidades.
Não se trata de obrigar ninguém a viajar.
Trata-se de não transformar uma dificuldade em uma sentença permanente.
Aos 21 anos, Romeo já deixou de viver muitas experiências que poderiam fazer parte da vida de qualquer jovem? Não temos como saber. E essa é justamente a questão: ninguém de fora pode afirmar.
Mas podemos, sim, levantar uma reflexão.
Talvez uma viagem cuidadosamente planejada, construída junto com ele e acompanhada por sua família e seus terapeutas, pudesse transformar aquilo que parece uma ameaça à rotina em uma experiência positiva.
Talvez ele não gostasse.
Ou talvez descobrisse que gosta muito.
E é nesse “talvez” que mora uma parte importante da inclusão: dar à pessoa a oportunidade de descobrir, com apoio e respeito, aquilo que ela consegue fazer.
Proteger é necessário. Preparar também.
Mas, em alguns momentos, é preciso ter cuidado para que a proteção não se transforme, sem querer, em uma barreira para novas experiências.
Falar sobre autismo é também falar sobre possibilidades. E talvez essa seja uma das conversas que ainda precisamos amadurecer.





