Alta de juros provoca recessão e perdas na economia

Sempre que a taxa de juros é debatida no país, vêm à tona alguns questionamentos a respeito de quem ganha e quem perde com esse momento. Importante lembrar as razões de as taxas se manterem, historicamente, em patamares elevados.

"A princípio, o primeiro motivo está no desequilíbrio fiscal e em uma dívida pública elevada que está sempre precisando ser financiada", explica Luiz Antonio Barbagallo, economista da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC). "Como o risco é elevado, na percepção dos investidores, juros maiores são exigidos nos empréstimos ao Brasil", completa.

Outro fator de importância está no controle inflacionário. "Se a inflação não pode ser freada via política fiscal, com corte de despesas e aumento de impostos, apela-se para a política monetária, aumentando-se os juros com o objetivo de esfriar a demanda e, consequentemente, o aumento de preços", pontua Barbagallo. "Juros altos são como uma apólice de seguro. Com a persistência da inflação, o Banco Central aplica aumentos na taxa Selic, tentando diminuir as expectativas de sua elevação", complementa.

Para a questão: quem ganha e quem perde com isso, o economista detalha que "é preciso lembrar que juros altos deprimem a economia ao reduzir o consumo, adiam investimentos empresariais devido ao alto custo do crédito para expansão dos negócios ou tornam os projetos pouco atrativos em vista da concorrência com maior retorno oriundo de aplicações financeiras". Finaliza, acentuando que "a consequência é recessão ou baixo crescimento".

No mercado financeiro, muito se fala em vantagens para o sistema de consórcios quando a taxa de juros básica — a Selic — é elevada, mesmo quando reduzida em 0,25 ponto percentual, como em recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).  "Contudo, como estudos da ABAC já comprovaram, essa correlação não é tão significativa como acreditada. Claro que o consumidor, na esmagadora maioria das vezes, compara a taxa de administração do consórcio com as taxas de financiamentos, mas, desde a sua criação, o consórcio sempre foi mais barato e o comportamento do consumidor é pouco suscetível às oscilações dos juros", fundamenta Barbagallo.

Atualmente, a taxa de administração média do consórcio está próxima a 17,5% sobre o valor total do crédito, durante a duração do grupo, sendo inferior em alguns segmentos, como o de veículos pesados e veículos leves, e ainda menor quando comparada à de um financiamento, por vezes, acima de 20% ao ano.

Ao considerar que juros elevados esfriam a atividade econômica e consequentemente podem adiar investimentos e planos futuros, incluindo aqueles que pensam em investir no consórcio, o economista afirma que "não se trata apenas de comparar produtos e verificar qual é o mais vantajoso, mas de entender que o efeito das altas taxas prejudica a economia como um todo, inclusive o consórcio".

O economista da ABAC frisa que "em análise de desempenho do sistema de consórcios, nos últimos dezenove anos, é possível constatar performances negativas em apenas quatro: 2007, com (-3,1%); 2013, com (-0,7%); 2014, com (-6,2%); e 2016, com (-4,8%)".

As justificativas confirmam as reduções nos resultados consorciais. Barbagallo detalha, por exemplo, que "em 2014, enquanto a taxa Selic fechava em 11,65%, o PIB estacionava; e em 2016, ao mesmo tempo que a Selic foi elevada para 13,65%, o PIB recuou (-3,3%). Nestes dois anos, o consórcio registrou suas maiores retrações. Mesmo com as taxas de juros elevadas, que poderiam tornar o produto mais atrativo em relação aos financiamentos, as causas da diminuição nas vendas de cotas foram, sem dúvida, a economia deprimida, desemprego e adiamento de projetos".

Como conclusão, o economista sintetiza os comportamentos: "onde tudo tem um limite. No caso das taxas de juros, quando elas enfraquecem fortemente a economia, todos perdem, inclusive o consórcio".

Sistema de consórcios no primeiro bimestre 

No primeiro bimestre, o sistema de consórcios registrou resultados positivos em relação ao mesmo período de 2025, apesar da ligeira desaceleração comum nesta época do ano.

A alta em mais setores e eventuais retrações em alguns destacam-se os 12,85 milhões de consorciados ativos em fevereiro. Mais uma vez o recorde histórico foi batido ao anotar aumento de 12,6% sobre os 11,41 milhões alcançados naquele mês do ano passado.

As vendas de 873,09 mil cotas, acumuladas nos dois meses, ultrapassaram em 8,8% as 802,62 mil de um ano atrás. Os decorrentes créditos comercializados totalizaram R$ 79,88 bilhões, 15,5% maior que os R$ 69,19 bilhões de 2025.

Paralelamente, as contemplações, ocasião em que os créditos liberados podem ser transformados em bens e serviços, alcançaram 309,19 mil, no acumulado de janeiro e fevereiro, 10,3% inferior às 344,68 mil do mesmo período do ano passado. Os créditos concedidos somaram R$ 21,52 bilhões, potencialmente injetados na economia, 1,6% menos que os R$ 21,88 bilhões passados.

Segundo Paulo Roberto Rossi, presidente-executivo da ABAC, "nota-se que as características de desaceleração da economia, comuns neste período do ano, atingiram alguns setores; contudo, na apuração geral, os indicadores do consórcio mostraram bons avanços nos resultados, possibilitando a continuidade de crescimento. A expectativa é equilibrar os desempenhos até o final do primeiro trimestre, visto que o sistema de consórcios está cada vez mais presente na cultura financeira do brasileiro e, por consequência, contribuído diretamente para o controle das finanças pessoais de forma responsável e consciente, com a tranquilidade que as decisões merecem".

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