O céu de Porto Alegre neste sábado estava num misto de frio e uma garoa teimosa, um cenário que parecia desenhado para o desconforto. Enquanto caminhava pelas rampas da Arena, trocando impressões com colegas da crônica esportiva, o sentimento era de uma ansiedade pesada, quase palpável. A expectativa era de que o Grêmio, vivendo uma fase de futebol pobre e precário, finalmente tirasse das costas aquele fardo insuportável de quem tenta parir uma bigorna em casa.
O adversário era um Santos instável, sem o brilho de outrora, mas que trazia consigo Gabriel Barbosa, uma pedra no sapato gremista cujos números contra nós sempre foram um lembrete cruel. E foi justamente ele quem, ainda no primeiro tempo, tratou de transformar o que seria uma noite de alívio em um ensaio de desastre. O gol inicial, aliás, teve um agravante: um erro infantil de Caio Paulista, que entregou a bola de presente aos pés da defesa santista, servindo o banquete para o rival. Naquele momento, as arquibancadas, tomadas por mais de 37 mil vozes, não perdoaram; a indignação era total e o nome de Caio ecoava sob o peso das vaias.
Parecia que o destino do Imortal estava selado, mas o futebol é caprichoso e se recusa a ser uma ciência exata. Carlos Vinícius, o nosso “Vini da Pose”, assumiu o papel de regente da reação. Cria da base santista, ele parecia querer pedir desculpas ao torcedor pelo sofrimento, empatando o jogo e mantendo a chama acesa mesmo após Gabi marcar o segundo.
Veio o segundo tempo, e com ele, uma metamorfose que poucos esperavam. Caio Paulista, que parecia fadado ao ostracismo após a falha grotesca, retornou dos vestiários com outra postura, com a alma de quem entende que a honra se recupera com suor, sendo peça fundamental na virada e saindo de campo, ao apito final, aplaudido por aquela mesma multidão que o havia execrado horas antes.
O ponto alto da noite, contudo, teve nome e sobrenome Tetê. Sabemos do peso que ele carrega, da cobrança de quem veio com status de craque e, acima de tudo, de quem é gremista desde o berço e sabe que estava devendo ao clube do seu coração. O gol da virada que ele marcou não foi apenas um tento na conta da temporada; foi um desabafo. A emoção estampada no rosto de Tetê, o afago da torcida ao final, tudo isso pintou um quadro de redenção.
O Grêmio venceu por 3 a 2, afastou-se da degola e, com a expulsão de Gustavo Henrique complicando qualquer lampejo de reação santista, o Imortal pôde enfim respirar. Foi uma noite de sábado onde o frio deu lugar a um calor humano, provando que, na Arena, a história nunca está escrita até que o último apito ecoe, e que até os vilões mais improváveis têm o direito, e a chance, de se tornarem heróis em um novo tentar.






