A mentira e suas figurações fazem parte da conduta humana. Aqui, vamos trazer, inspirados no dia primeiro de abril, considerações conceituais, com referências filosóficas e psicanalíticas, no campo social e no trabalho clínico.
Para o grande enciclopedista que influenciou a Revolução Francesa, o direito e as áreas humanas, Jean-Jacques Rousseau (Genebra, 28 de junho de 1712 – Ermenonville, 2 de julho de 1778), a mentira visaria, como ato, afirmar algo em vantagem própria e em prejuízo de outrem, sendo uma relação direta entre proveito e dano. O que não tem esse propósito não estaria, assim, conceituado como mentira, mas como ficção.
Para o grande iluminista alemão Immanuel Kant, nascido em 22 de abril de 1724, em Königsberg, e falecido em 12 de fevereiro de 1804, a mentira, independentemente de ser dolosa, é indigna. Kant traz uma dimensão ética de comprometimento humano com a verdade.
Segundo o grande nome da filosofia teológica, Santo Agostinho, nascido em 13 de novembro de 354 d.C., em Tagaste, e falecido em 28 de agosto de 430 d.C., em Hipona, Annaba, Argélia: “Mentir é ter uma coisa na mente e enunciar outra, seja com palavras, seja com sinais quaisquer. É por isso que se diz que o mentiroso tem o coração duplo, ou seja, um duplo pensamento: o pensamento da coisa que ele sabe ou acredita ser verdadeira e que não expressa, e o pensamento da coisa que ele expressa, mesmo sabendo e acreditando que é falsa”.
Conforme meu mestre na Psicologia da UFRGS, o psicanalista Norton da Rosa, “mentira e verdade não são, necessariamente, pares antitéticos. Se, de um lado, a mentira busca falsear a ideia de realidade dos fatos, de outro, ela porta alguma dimensão de verdade psíquica, seja ela imaginária ou real”.
Rosa lembra Freud, no texto Duas mentiras contadas por crianças, no qual o mentir está associado às “forças motivadoras” infantis, poderosas em suas mentes, fazendo parte de todos os sujeitos e de suas subjetivações. E lembra que, na visão lacaniana, a mentira não se restringe ao engano do outro, nem é apenas um recurso de linguagem, mas uma condição.
Como analista, fui aprendendo a não me fixar no que se afigura como mentira na narrativa de meus analisandos, considerando seus mecanismos de defesa, como projeção e autoengano, e apostando nas formações do inconsciente, como lapsos e chistes, que trazem o suporte verdadeiro do que foi recalcado, dos sintomas e do desejo demandando satisfação, revelados na livre associação.
O desenvolvimento infantil, no viés psicanalítico, tem na pulsão de saber a busca de uma verdade nas investigações sexuais infantis, que passam pelo imaginário não mentiroso da “cegonha”. Aos que desqualificam a psicanálise como “pseudociência” — fora dos moldes cartesianos —, lembramos que a ciência também vive de meias verdades; basta vermos a evolução das teorias atômicas.
Na psicopatologia psicanalítica, tomamos sem combate aquilo que é, sem dúvida, uma verdade imaginária na psicose. E sabemos que mentir é um disfarce do perverso para impor seu gozo ao outro, desmentindo, embora saiba da castração, a lei que nasce na interdição do incesto.
No campo político, precisamos considerar o que é verdadeiro, num viés marxista, isto é, os interesses em jogo na luta de classes. Temos mentiras disfarçadas em premissas de pré-campanha. Quando Caiado se coloca como terceira via e promete anistiar Bolsonaro e demais golpistas do 8 de janeiro de 2023, temos um bom exemplo.
Particularmente, acredito que a verdadeira terceira via é o governo de frente democrática de Lula, por não ser uma ditadura do proletariado nem um controlador ativo da economia no viés keynesiano, tampouco adotar um descomprometimento neoliberal, mas sim transitar pela busca do bem-estar social em seus avanços inegáveis.
É uma verdade que o antifascismo e as correntes democráticas devem buscar, neste ano eleitoral, sem autoenganos diante dos interesses da classe dominante, combater as fake news.
Em tempo: que o coelhinho da Páscoa, que não é mentira, exista como ser ideal, imaginário, e simbolize fertilidade, vida e, quem sabe, saltos com delicadeza; que ele nos traga, com o amor cristão ressurgido, esperanças, mudança e paz para o mundo.






