A culpa, lugares e sentidos

A culpa é um sentimento propriamente humano, complexo e multifacetado, que pode assumir diferentes sentidos e produzir impactos na saúde mental, nos relacionamentos e nas escolhas de vida do sujeito.

Segundo Friedrich Nietzsche, esse sentimento foi um dispositivo útil à religião e ao Estado para o controle dos instintos humanos, transformando-os em “má consciência” e contribuindo para a domesticação do ser humano.

Para Martin Heidegger, dentro de uma perspectiva existencialista, somos “essencialmente culpados”. Isso não implica necessariamente a prática de um crime, mas diz respeito à falta constitutiva ligada às escolhas não realizadas em favor de outras. No entanto, um excesso de dúvida sobre essas possibilidades pode assumir um caráter neurótico, sob uma leitura psicanalítica.

Na filosofia estoica, a culpa é vista como inútil, já que eventos passados não podem ser modificados. O foco recai sobre a responsabilização: reconhecer os erros e buscar uma forma de agir melhor, em direção à paz interior. Essa perspectiva dialoga com o campo analítico, no qual a ressignificação da culpa pode permitir novas escolhas mais éticas e alinhadas ao desejo.

No campo filosófico-religioso, especialmente na tradição cristã ocidental, a expressão “minha culpa, minha máxima culpa” aparece acompanhada de um marcador corporal — o gesto de bater no peito. Trata-se de um sentimento associado ao pecado original, entendido como uma dívida com Deus decorrente da transgressão.

Nesse contexto simbólico, Adão e Eva, estimulados pela serpente, desobedecem e comem o fruto proibido, sendo expulsos do Paraíso — um lugar de graça onde não havia sexualidade nem necessidade reprodutiva, já que Eva teria sido criada a partir da costela de Adão.

Sob a ótica da inteligência emocional, conforme Daniel Goleman, a culpa pode ser útil na promoção de mudanças comportamentais. No entanto, quando infundada, torna-se tóxica e adoecedora.

No viés psicanalítico, a culpa está relacionada ao Supereu, como herança do Complexo de Édipo e das interdições ligadas ao desejo. Em determinados níveis, pode se manifestar como um tipo de masoquismo moral patológico.

Ainda no campo da psicopatologia, a ausência de culpa é característica de estruturas perversas. Já em quadros melancólicos, especialmente nas neuroses, a culpa pode aparecer associada a uma profunda baixa autoestima, conforme a leitura freudiana.

Jacques Lacan acrescenta que, na melancolia propriamente dita — entendida como uma estrutura psicótica —, ocorre uma identificação com o objeto perdido (“objeto a”), acompanhada de forte pulsão de morte e um extravio do desejo. Trata-se de um quadro que demanda suporte familiar, acompanhamento psicoterapêutico e, muitas vezes, intervenção psiquiátrica, devido ao risco elevado de suicídio.

Na clínica, considerando a singularidade de cada caso, a culpa frequentemente aparece atravessada por construções imaginárias. É comum observá-la influenciando escolhas marcadas por renúncias, divisões subjetivas ou autossabotagens punitivas. Isso pode se manifestar em relações afetivas interrompidas, escolhas profissionais voltadas para agradar aos pais ou dificuldades em estabelecer limites nas relações familiares.

Também é frequente, especialmente nas redes sociais em períodos eleitorais, ouvir afirmações como: “Essa culpa eu não vou ter!”. Esse posicionamento pode surgir diante de dilemas políticos, como o chamado voto útil, quando há tensão entre preferência pessoal e estratégia coletiva. Ainda assim, permanece a questão: é possível se isentar completamente das consequências das escolhas — ou da ausência delas?

Enquanto psicanalista, é fonte de satisfação observar analisandos conseguindo se desprender de culpas paralisantes, depressoras ou infundadas. Esse processo permite a construção de escolhas mais livres, relações mais saudáveis e maior qualidade de vida.

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Gaio Fontella
Gaio Fontellahttps://realnews.com.br/category/opiniao/blog-do-gaio/
Gaio Fontella – Psicólogo e psicanalista, graduado e pós-graduado pela UFRGS. É comentarista e produtor do canal Café com Análise, no YouTube, e atua como coordenador da ONG Desafios, em Porto Alegre.

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