Até onde vamos normalizar a violência dentro das escolas?

Todos os dias, novos casos de violência dentro das escolas aparecem. E, a cada novo episódio, parece que nos acostumamos um pouco mais com aquilo que jamais deveria ser considerado normal.

Um aluno tocou em uma profissional sem consentimento. Outro agrediu um professor. Em um caso ainda mais grave, houve até a colocação de cacos de vidro em uma bebida. São situações que ultrapassam qualquer discussão sobre indisciplina.

E talvez o mais preocupante seja justamente a forma como começamos a tratar esses episódios como parte da rotina de quem trabalha na educação.

Em poucos anos trabalhando na área, eu mesmo já passei por situações que jamais imaginei vivenciar dentro de uma escola: tentativa de agressão com tesoura, mordidas, chutes, cabeçadas, tapas e socos. E não estou falando de uma única faixa etária. São crianças e adolescentes, do segundo ano do ensino fundamental ao ensino médio.

Mas minha história está longe de ser exceção.

Uma pesquisa realizada pelo Centro do Professorado Paulista (CPP) com mais de mil professores revelou que 65,6% dos docentes já sofreram algum tipo de agressão dentro do ambiente escolar. O mesmo levantamento apontou que 74,4% dos profissionais não se sentem seguros dentro da sala de aula. A violência verbal aparece como a forma mais comum de agressão, seguida pela violência psicológica, moral, institucional e física.

Outro dado preocupante é que as mulheres aparecem entre os grupos mais vulneráveis à violência escolar. Pesquisas do CPP indicam que as professoras são as profissionais que mais relatam agressões e sensação de insegurança dentro das escolas.

A pergunta que fica é simples: onde vamos parar?

Não se trata de discutir valores, educação familiar ou apontar culpados. A questão é muito mais básica do que isso.

Não existe salário, vocação ou amor pela profissão que justifique uma pessoa acordar às seis da manhã, chegar ao trabalho às sete e precisar aceitar como parte da profissão a possibilidade de levar um tapa no rosto porque um aluno se recusou a realizar uma atividade.

Quem trabalha na educação não deixa de ser uma pessoa quando entra na escola.

Tem limites. Tem medo. Tem dignidade. Tem direito à segurança.

E esse debate não pode ser restrito aos professores.

Profissionais de apoio à inclusão, estagiários, monitores, equipes pedagógicas, funcionários administrativos e todos aqueles que fazem parte da rotina escolar também estão expostos. Muitas vezes, são justamente esses profissionais que permanecem mais próximos dos alunos em momentos de crise e acabam colocados na linha de frente.

Ao mesmo tempo, existe uma cobrança cada vez maior sobre a escola.

É verdade que a escola educa. Mas estamos falando de uma instituição que deveria trabalhar também com conhecimento, desenvolvimento, convivência e formação. Não podemos transferir integralmente para ela responsabilidades básicas que deveriam começar dentro de casa.

Estamos chegando ao ponto de um profissional precisar ensinar: “Não, meu amor. Você não pode puxar o meu cabelo quando não consegue aquilo que quer.”

É claro que crianças precisam ser ensinadas. É claro que adolescentes precisam de limites. É claro que a escola precisa acolher, orientar e trabalhar conflitos.

Mas acolhimento não significa ausência de limites.

Inclusão não significa deixar o profissional desprotegido.

Compreender o comportamento de um aluno não significa aceitar agressões contra quem está trabalhando.

E proteger o profissional também não significa abandonar o aluno.

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes dessa discussão: defender o trabalhador da educação não é ser contra os estudantes.

Pelo contrário.

Uma escola segura para o profissional também é uma escola mais segura para o aluno.

Quando um professor ou profissional de apoio é agredido e nada acontece, a mensagem transmitida não é apenas para aquele trabalhador. É para toda a comunidade escolar.

Quando uma agressão é tratada como “coisa de criança”, quando um profissional é orientado simplesmente a “ter mais paciência” ou quando a responsabilidade é empurrada de um setor para outro, criamos um ambiente em que a violência pode se tornar parte da rotina.

E não podemos esquecer que existe um custo humano nisso.

O medo constante, a pressão diária e a sensação de insegurança têm provocado adoecimento mental em larga escala. Dados levantados pelo CPP mostram que somente entre professores estatutários da rede estadual paulista foram concedidas mais de 42 mil licenças por transtornos mentais e comportamentais em um único ano, evidenciando o impacto da violência e da sobrecarga emocional sobre a saúde dos educadores.

A cada ano, ouvimos falar sobre a falta de professores, sobre profissionais deixando a sala de aula e sobre a dificuldade de atrair novas pessoas para a carreira.

Não é por acaso.

Governos e instituições têm criado incentivos, bolsas e até programas de formação para tentar aumentar o número de pessoas interessadas em cursos de licenciatura e, consequentemente, na carreira docente.

Mas precisamos fazer uma pergunta incômoda:

Estamos tentando convencer mais pessoas a entrar em uma profissão que ainda não conseguimos tornar suficientemente segura para quem já está nela?

Não basta formar professores.

Precisamos garantir condições para que eles permaneçam.

Não basta falar sobre valorização.

É preciso proteger.

Não basta criar campanhas sobre a importância da educação.

É preciso cuidar de quem faz a educação acontecer todos os dias.

O profissional da educação não pode ser colocado diante de uma escolha entre exercer sua profissão e proteger a própria integridade física.

Precisamos discutir protocolos claros para situações de agressão, apoio psicológico e pedagógico, presença de equipes especializadas, participação efetiva das famílias, encaminhamentos adequados e, principalmente, responsabilidade institucional diante de episódios de violência.

Isso não significa defender punições indiscriminadas. Significa reconhecer que cada situação precisa ser analisada de acordo com sua gravidade, idade, contexto e necessidades do estudante, sem esquecer que existe uma segunda pessoa envolvida: a vítima.

Porque, quando falamos sobre inclusão, acolhimento e desenvolvimento dos alunos, precisamos lembrar que os profissionais também precisam ser incluídos, acolhidos e protegidos.

A violência não pode ser normalizada simplesmente porque acontece dentro de uma escola.

Um tapa continua sendo um tapa.

Um chute continua sendo um chute.

Uma mordida continua sendo uma agressão.

E uma ameaça não deixa de ser grave porque foi praticada por alguém que ainda está em formação.

Quando mais de 65% dos profissionais da educação já foram vítimas de algum tipo de agressão, a pergunta deixa de ser se existe violência nas escolas. Os números já responderam isso.

A verdadeira pergunta é:

O que estamos dispostos a fazer antes que isso se torne completamente normal?

 

 

Referências

– Centro do Professorado Paulista (CPP). Pesquisa sobre violência no ambiente escolar.
– BBC News Brasil/Folha de S.Paulo. A epidemia de violência contra professores no Brasil.
– CNN Brasil. Pânico na sala de aula: 75% das professoras não se sentem seguras na escola.
– Jornal da Band. Violência nas escolas: 65% dos professores de SP já sofreram agressões.

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