Essa reflexão surgiu a partir de um debate gerado no Facebook pela grande radialista Beatriz Fagundes, que publicou um vídeo no qual uma senhora apresenta uma conduta inesperada de alguém que se considera capaz de tratar pessoas.
Tânia Rocha, que se apresenta como especialista em Constelações Familiares, durante um voo, teria proferido insultos racistas contra um copiloto negro de uma companhia aérea. Algo inesperado de quem se arvora em “coach, guru, terapeuta, pastor-celebridade”, conforme bem pontuou Beatriz Fagundes.
Essa situação deixa claro, mesmo para a pessoa mais leiga, que alguém tão destemperado não teria condições de cuidar da saúde mental de ninguém. Tampouco poderia ser considerada uma “psicanalista”, como equivocadamente apareceu em alguns comentários.
É muito importante que possamos separar o joio do trigo quando falamos em terapia, terapeutas, psicólogos e psiquiatras. Não se trata, aqui, de desqualificar o trabalho de determinadas terapias que estão fora das academias, como a terapia reichiana, a Programação Neurolinguística (PNL), o Reiki, os Florais, entre outras.
Eu sou psicólogo e psicanalista e fiz ampla formação em terapias holísticas, o que me autorizou a realizar práticas terapêuticas que muito beneficiaram pessoas que me procuraram, sem jamais me colocar como alguém capaz de ocupar o lugar de um psicólogo habilitado a realizar diagnósticos e avaliações psicológicas ou a conduzir tratamentos psicoterapêuticos.
Tampouco, como terapeuta floral e naturopata, jamais me coloquei como “alternativo” à psiquiatria, pois transtornos graves não dispensam a psicofarmacologia, que é atribuição dessa especialidade médica.
Porém, falta de temperança e de ética não são características das terapias complementares. Prefiro o termo “complementares” a “alternativas”, pois este último pode implicar uma exclusão de outras formas de cuidado.
Podemos considerar, por exemplo, que, no campo terapêutico, temos a musicoterapia, indicada em determinadas situações, inclusive no atendimento de pessoas autistas. O relevante é compreender que ética e responsabilidade profissional devem estar presentes independentemente da abordagem utilizada.
Também é preocupante a existência de pessoas que se apresentam como “psicólogos” e defendem a chamada “cura gay”, em completa incoerência com princípios fundamentais da Psicologia, como o combate a toda forma de opressão e discriminação.
Uma dita “terapeuta” com uma conduta como a atribuída a Tânia Rocha, marcada pelo desequilíbrio e por discurso de ódio, além de manifestações de desqualificação de Lula e de um racismo justificado por um imaginário de sofrer “racismo reverso”, por não querer cumprir regras aplicáveis a todos, reúne razões suficientes para que se questione sua capacidade de ocupar o lugar de cuidadora da saúde mental de alguém.
Ficamos, então, com uma lição: é fundamental saber quais são as habilitações e competências necessárias para cuidar de nossa saúde mental.
Evidentemente, podemos fazer muitas coisas que são terapêuticas e ajudam a aliviar o estresse, como meditar e dançar. Também podemos reconhecer que existem terapeutas holísticos honestos, que não se colocam como alternativas excludentes aos tratamentos convencionais — por exemplo, no combate ao câncer, em que tratamentos como a quimioterapia possuem papel fundamental.
Nesse debate, o CFP (Conselho Federal de Psicologia) vem atuando junto ao Congresso Nacional, aos Conselhos profissionais e a outros envolvidos na discussão para que o exercício regulamentado das psicoterapias seja uma prerrogativa de psicólogos(as) e médicos(as), incluindo os médicos psiquiatras.
Em tempos virtuais, conforme posição atribuída ao CFP, robôs e chatbots não têm capacidade de discernimento clínico, empatia real e compreensão das questões emocionais e dos sofrimentos psíquicos humanos.
Para nós, não existe “PsicologIA”, tampouco “PsicoterapIA”. O imaginário de quem acredita que isso seja possível pode fazer parte de um sintoma social relacionado à virtualização das relações e, inclusive, pelo viés psicanalítico, a um declínio dos vínculos pulsionais e do suposto saber no humano — questões que são passíveis de investigação e pesquisa.
Afinal, quando falamos de saúde mental, a pergunta permanece: quem é, de fato, capaz de cuidar de quem sofre?





