O levar vantagem

Levar vantagem, ser “esperto”, ficou conceitualizado como a “Lei de Gerson”, estigmatizando, assim, o jogador e os brasileiros com seus “jeitinhos”. Gerson, na Copa de 1970, foi o meio-campista que organizava jogadas bem cadenciadas, dando ritmo à saída de bola, com a precisão da perna esquerda. E marcou um dos gols que nos deram a vitória por 4 a 1 contra a Itália.

Em 1976, quando o comercial do “Vila Rica” foi veiculado, pouco se falava dos malefícios do fumo. Fumar era associado a ser vitorioso, e Gerson era um bom exemplo. Mais irônico ainda era associar esperteza à escolha de um cigarro econômico e acessível a todos, desconsiderando a questão da saúde, num imaginário em que bastava fumar para ser melhor. A “Lei de Gerson” seguiu produzindo subjetividades e autoenganos.

No campo político, um concorrente pode oferecer vantagens ao seu almejado eleitor que sejam passíveis de cumprimento, e não aquilo que caracterizaria propaganda enganosa, sempre dentro de limites orçamentários que devem ser considerados. Como política pública, deveríamos adotar dinâmicas psicoeducacionais nas relações de trabalho, nas escolas e nas instituições, fazendo um contraponto ético à “Lei de Gerson”.

Bem importantes são as vantagens da lucidez preocupada com o futuro do planeta, e não com o lucro pessoal imediato, pois o comprometimento ambiental e seus males acabam, ainda que com maiores prejuízos aos mais vulneráveis, sendo socializados.

A ganância do capitalismo neoliberal e as gestões a ele afiliadas deixam suas marcas. Um exemplo é quando um código ambiental é flexibilizado em mais de 500 itens, permitindo a devastação de matas ciliares. E, bem perto de nós, ainda é de se considerar que a alegação de problemas de manutenção e de parafusos nas comportas deixou Porto Alegre alagada em 2024, conforme técnicos hidráulicos da UFRGS.

Nesse debate, o SOS RS Diversidade tem como demanda básica o acesso ao Fundo de Reconstrução, do qual boa parte — mais de R$ 6 bilhões — ficou parada. Em mau tempo, nosso objetivo continua mais do que atual! Há mais de dois anos, esta é uma luta vanguardeada pelo SOS RS Diversidade, que aguarda agenda com Juliana Brizola, Edgar Pretto e lideranças, para que façamos a transição de governo contando com esse recurso, que beneficiará a sociedade civil como um todo.

Nessa luta contra vantagens indevidas, conforme denúncia da deputada Laura Sito (PT) ao MPRS (Ministério Público do Rio Grande do Sul) e ao TCE (Tribunal de Contas do Estado), tivemos até R$ 200 milhões do fundo destinados a subsidiar juros de financiamentos para grandes empreendimentos turísticos por meio do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prograntur), beneficiando iniciativas que não foram diretamente atingidas pela catástrofe político-ambiental de 2024, como resorts e complexos hoteleiros na Serra Gaúcha.

Falando aos que desejam vantagens honestas com o eleitor: não fujam dos confrontos! Espero o mesmo de Lula, que, além de estar vantajoso nas pesquisas, é bom debatedor, acostumado ao toque do “Velho realejo”, que tenta desqualificar sua imagem por conta do Lulinha. Lembrem que o presidente não impediu inquérito, tampouco trocou delegados para defender o filho.

E juízes corruptos não podem ter aposentadoria integral como vantagem, tampouco podem, antidemocraticamente, inibir o sigilo da fonte, prerrogativa do jornalismo. Não é, Alexandre de Moraes e Flávio Dino?

Discursos que sustentam ações pela democracia são os vantajosos e devem ser eleitos, considerando, com equidade, as justas vantagens legais destinadas aos idosos, negros, crianças e adolescentes, LGBTQIA+ e todos os que mais precisam de amparo.

Na clínica psicanalítica, poder escutar dúvidas sobre vantagens nas relações familiares facilita a elaboração de demandas simbólicas. Quem faz um percurso em análise reconhece adquirir um patrimônio subjetivo vantajoso: não poupar, no inconsciente, dores recalcadas que podem ser ressignificadas, tampouco a potência do desejo claro que mobiliza ações para uma vida melhor, com a ética da inclusão do outro, superando o egoísmo natural e infantil do narcisismo primário.

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Gaio Fontella
Gaio Fontellahttps://realnews.com.br/category/opiniao/blog-do-gaio/
Gaio Fontella – Psicólogo e psicanalista, graduado e pós-graduado pela UFRGS. É comentarista e produtor do canal Café com Análise, no YouTube, e atua como coordenador do SOS-RS Diversidade, em Porto Alegre.

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