Filhos idosos enfrentam desafios ao cuidar de pais superidos

Uma filha de 70 anos ajuda a mãe de 96 a tomar banho, acompanha consultas e organiza os medicamentos. Em outra família, um filho já aposentado divide o dia entre os próprios tratamentos de saúde e as necessidades do pai nonagenário. Situações como essas tornam-se mais frequentes à medida que diferentes gerações alcançam a velhice dentro da mesma família.

Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a dimensionar essa mudança. Em 2024, uma mulher que chegava aos 80 anos ainda poderia viver, em média, mais 9,5 anos. Entre os homens, a expectativa adicional era de 8,3 anos. O mesmo levantamento mostra que a população brasileira com 60 anos ou mais passou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024, crescimento de 53,3%.

Esse avanço da longevidade cria uma configuração familiar relativamente nova: filhos que já são idosos assumindo o cuidado de pais com mais de 80 ou 90 anos. O termo "superidosos" costuma ser utilizado para se referir às pessoas com 80 anos ou mais, faixa etária que também recebe prioridade especial no Estatuto da Pessoa Idosa.

A presença de um cuidador idoso não significa, por si só, que o cuidado seja inadequado. Muitas pessoas chegam aos 60, 70 ou mesmo aos 80 anos com autonomia e disposição. A atenção deve estar voltada às exigências da rotina e à compatibilidade dessas tarefas com a condição física e emocional de quem as assume.

Um estudo brasileiro publicado pela Escola Anna Nery, realizado com cuidadores informais vinculados à assistência domiciliar em Maringá, no Paraná, identificou que 47,6% dos cuidadores participantes da pesquisada eram idosos.

Entre os 101 participantes selecionados, 81,2% eram mulheres e 31,7% cuidavam do pai ou da mãe. Outros 37,6% prestavam assistência ao cônjuge. A maioria, 59,4%, desempenhava essa função havia mais de cinco anos, enquanto 53,3% não havia recebido capacitação para o cuidado domiciliar. O estudo encontrou ainda cuidadores com idades entre 80 e 89 anos, que representavam 10,9% da amostra.

Os resultados não podem ser generalizados para todo o país, pois retratam um grupo específico. Ainda assim, ajudam a dar visibilidade a uma realidade pouco discutida: parte do cuidado familiar já é prestada por pessoas que também precisam acompanhar a pressão arterial, cumprir horários de medicamentos, tratar dores articulares e manter as próprias consultas em dia.

As dificuldades costumam aparecer de forma gradual. No início, o filho acompanha uma consulta ou prepara uma refeição. Depois, passa a ajudar o pai a levantar da cama, entrar no banho, usar o banheiro e caminhar pela casa. Quando a dependência aumenta, a rotina pode incluir trocas durante a madrugada, apoio nas transferências e supervisão durante boa parte do dia.

Algumas dessas tarefas exigem força, equilíbrio e conhecimento sobre a forma segura de executá-las. Ao tentar sustentar sozinho o peso do familiar, o cuidador pode sofrer uma queda ou lesão, colocando ambos em risco. Noites interrompidas também podem provocar sonolência, irritabilidade, desatenção e dificuldade para manter os próprios compromissos.

Outros sinais aparecem fora das tarefas fisicamente mais pesadas. O filho começa a adiar exames, esquece os próprios medicamentos, deixa de se alimentar nos horários habituais ou evita sair porque teme que algo aconteça durante sua ausência. Como a mudança ocorre aos poucos, a família pode demorar para perceber que quem cuida também passou a precisar de suporte.

"Há filhos que mantêm independência e disposição, mas já não têm a mesma força para levantar outra pessoa, passar noites seguidas sem dormir ou conduzir sozinhos uma rotina de dependência intensa. Muitas vezes, o pedido de ajuda surge apenas depois de uma queda, de uma internação ou do adoecimento do próprio cuidador familiar", afirma Bruno Butenas, fundador da Geração de Saúde.

A sobrecarga familiar também passou a ocupar espaço nas políticas públicas. A Lei nº 15.069, de dezembro de 2024, instituiu a Política Nacional de Cuidados, que reconhece o direito de ser cuidado, de cuidar e de exercer o autocuidado.

Em julho de 2025, o governo federal regulamentou o Plano Nacional de Cuidados. Entre seus princípios estão a interdependência entre quem cuida e quem recebe assistência, a corresponsabilização social e a oferta simultânea de suporte para as duas partes. Trabalhadores não remunerados do cuidado, incluindo familiares, aparecem entre os públicos prioritários.

Dentro das famílias, compartilhar o cuidado pode envolver irmãos, parentes próximos, serviços públicos, profissionais de saúde e cuidadores contratados. Essa divisão não precisa afastar o filho da rotina dos pais. Ela permite que tarefas fisicamente exigentes ou períodos de maior vigilância deixem de ficar concentrados em uma única pessoa.

O apoio pode ser ajustado às necessidades de cada casa. Algumas famílias precisam de auxílio no banho e na higiene durante poucas horas. Outras procuram cobertura à noite, acompanhamento em consultas ou plantões mais longos quando o superidoso não pode permanecer sozinho.

"Dividir as responsabilidades ajuda o filho a voltar a ser filho em parte do dia. Ele continua participando das decisões e da convivência, mas deixa de assumir sozinho tarefas que podem comprometer sua própria saúde", acrescenta Butenas.

A Geração de Saúde atua com cuidadores de idosos e acompanhamento domiciliar em plantões de diferentes durações. Informações sobre os formatos de atendimento e o apoio oferecido às famílias estão disponíveis em www.gscuidadoresdeidosos.com.br.

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