Veja bem: nesta quinta-feira (13), o TRE-RS absolveu por unanimidade a prefeita Jussara Caçapava e o vice-prefeito Mano. Não foi um placar apertado arrancado no susto, foi o plenário inteiro dizendo que a AIJE movida por Cláudia Azevedo não tinha lastro. Repare bem no verbo: absolveu. Não “livrou por enquanto”, não “deu um jeitinho”. Analisou os dois vídeos apontados como uso indevido da máquina pública e concluiu que não havia crime. Achei bom sublinhar isso logo de cara, porque é precisamente o tipo de fato que os caçadores de likes preferem esquecer quando a versão deles desmorona no cartório.
E por falar em versão que desmorona, chegou até esta coluna um vídeo de um cidadão, publicado nas redes, no qual ele descreve Cachoeirinha como território sob domínio de facção, com direito a organograma de parentesco criminoso costurando secretaria por secretaria. Confesso que assisti, com aquele misto de fascínio e cansaço que só o gênero “acusação em cadeia” produz. Porque veja bem, o método é sempre o mesmo: fulano é secretário, o sogro de fulano é secretário de outra pasta, o genro do sogro trabalhava com um sujeito cujo pai foi condenado por assalto a carro-forte, logo, Cachoeirinha é narcoestado. É a velha lógica do seis graus de separação, só que aplicada como se fosse peça processual, quando na verdade é currículo de Kevin Bacon com verniz de denúncia.
Repare bem no que cidadão efetivamente entregou como prova, no trecho que trata da atual gestão. Ele associa o diretor-geral da Câmara a um pai condenado, associa uma chefe de gabinete a um pai condenado por lavagem, associa um vereador à filha empregada na Secretaria de Comunicação, e por aí vai, tecendo um mapa de parentescos como se parentesco fosse tipificação penal. Pergunto, sem nenhuma ironia gratuita, porque essa aqui é séria: desde quando o Código Penal brasileiro pune filho pelo currículo do pai? Se a resposta for “não pune”, e não pune, então o que sobrou do vídeo, tirando a insinuação goela abaixo, foi o quê exatamente?
Compare agora o rigor dos dois processos. De um lado, o TRE-RS examinou dois vídeos específicos, ouviu as partes, analisou o conteúdo, e decidiu, unanimemente, que não havia uso ilícito da máquina. Decisão fundamentada, recorrível, pública, assinada por desembargadores que colocam o nome embaixo do que escrevem. Do outro lado, temos um vídeo de rede social que amarra Jussara, por tabela, a facções, sem uma linha de inquérito, sem uma denúncia formal contra a atual gestão nesse ponto específico, sem nada além da arquitetura sedutora do “eu conectei os pontos”. Quem vai processar quem primeiro, minha gente, pela lógica que o próprio indivíduo usa contra os outros?
Não estou aqui dizendo que Cachoeirinha é jardim de infância, longe disso, o histórico de cassações na cidade é real e está documentado, aliás documentado com nome, número de processo e sentença, coisa que falta abundantemente no vídeo em questão. O que estou dizendo, e aqui repito porque é o cerne do artigo, é que existe uma diferença abissal entre acusar e provar, e que essa diferença, semana após semana, vem sendo apagada a dedo por quem prefere views a apuração. Jussara foi investigada formalmente numa AIJE específica e saiu absolvida por unanimidade.
A prefeita reagiu como quem sabia que a serenidade rende mais do que o escracho: agradeceu ao tribunal, aos advogados, e disse que seguirá trabalhando até 2028. Já os que montaram palanque contra ela antes do julgamento, inclusive candidatos que usam farda ou crachá de autoridade para dar peso à insinuação, esses ainda não explicaram publicamente por que o processo que efetivamente foi a julgamento não confirmou nada do que prometeram. Fico devendo ao leitor a resposta, porque até a publicação deste texto, ninguém a deu.
Fica o convite, então, ao cidadão que acusa: já que investigou tanto parentesco, que investigue agora a distância entre afirmar e comprovar. Cachoeirinha merece apuração séria sobre facção, se houver, com inquérito, prova pericial e sentença. O que não merece é servir de palco para currículo eleitoral construído sobre organograma de rede social. Que faça o teste da próxima acusação no tribunal antes de testar no algoritmo.





