Meus amigos, o Grêmio reaprendeu a sofrer. E digo isso não como um elogio definitivo, mas como o diagnóstico de um paciente que, finalmente, parece ter aceitado a gravidade da sua própria doença. O time parece ter assimilado suas imensas limitações, ainda que o seu treinador insista, com uma teimosia quase poética, em uma fracassada ideia de equipe que o campo já cansou de rejeitar.
Olhar para a nossa retrospectiva recente é encarar o mapa de uma montanha-russa desgovernada. A vitória sofrida por 2 a 1 contra o São Paulo e o alívio do 1 a 0 diante do Mirassol não apagam as cicatrizes do empate no jogo de ida no interior paulista, a dolorosa eliminação para o Bolívar na Sul-Americana ou o tropeço contra o Fluminense. O Grêmio atual se mostra uma bagunça total. Uma desorganização crônica que não se limita às quatro linhas: ela transborda, escancarada, nas salas de reunião dos dirigentes e ecoa na própria cadeira presidencial.
Mas não quero aqui ficar no mais do mesmo. Chover no molhado e relatar os erros da gestão é algo que vocês, que vivem o clube, já sabem de cor. Quero aproveitar este espaço para fazer um exercício de reflexão. Quero falar de histórias. Afinal, mesmo no meio da tempestade perfeita, o futebol insiste em nos apontar caminhos. E eu separei três casos específicos que merecem ser contados, porque eles são a prova de que, dentro de cada turbulência, ainda há pontos de luz resistindo.
O primeiro deles atende pelo nome de Weverton. Há um jargão antigo no futebol, um ditado popular repetido há décadas por técnicos, jornalistas e torcedores, cuja autoria ninguém conhece: “Um grande time começa por um grande goleiro”. Pois Weverton decidiu se apropriar dessa máxima. A cada atuação, ele se consolida não apenas como o garantidor da nossa segurança defensiva, mas como um verdadeiro amuleto para o torcedor gremista. Em tempos de terra arrasada, ter alguém que fecha o gol é o primeiro passo para manter a dignidade de pé. O imortal vai, aos poucos, reencontrando sua alma sob as traves.
O segundo caso é o do nosso novo zagueiro Wallace, contratado em junho após se destacar pelo CRB. O jovem assinou por cinco temporadas e, sem pedir licença, tomou conta da posição. Ele chama a atenção pela imponência na bola aérea e pela qualidade na saída de jogo, mas foi o seu espírito que conquistou a Arena. Apelidado carinhosamente de “Cortez” uma menção honrosa ao nosso ex-lateral multicampeão, ele veste a camisa tricolor com a naturalidade e o peso de quem tem vinte anos de casa. É a personificação da garra, da raça e da dedicação que a torcida exige e que o elenco tanto necessita.
Por fim, há a redenção de Pavón. O argentino vive dias iluminados. Tornou-se o “homem do jogo”, o cara da bola parada, o operário que virou operático. O gol de falta que nos classificou contra o Mirassol e a cobrança perfeita que garantiu a virada sobre o São Paulo são o ápice de quem sabe o que é o inferno. Não faz muito tempo, Pavón viveu seu período mais contestado: um incômodo e longo jejum de um ano inteiro sem balançar as redes, acumulando mais de 40 partidas de seca. Ele ouviu vaias, colheu críticas pela ineficiência, mas foi bancado internamente por sua entrega tática e ajuda na marcação. O futebol recompensa quem não desiste. Hoje, a bola parada de Pavón é o nosso suspiro de alívio.
O Grêmio precisa parar de se maquiar. Precisa parar de tentar parecer o que não é nos microfones e aceitar a dura realidade: hoje, somos um time ruim. Mas o futebol nos ensina que aceitar a própria condição não é um ato de covardia, é o primeiro passo para a desconstrução e para a volta por cima. A luz no fim do túnel não virá de um milagre da diretoria ou de uma epifania do treinador. Ela já está lá embaixo, no campo, refletida na segurança de Weverton, na alma do garoto apelidado de Cortez e na resiliência iluminada de Pavón.
Basta o resto do clube ter a coragem de olhar para o mesmo espelho.





