Pois é chegada a hora da verdade, e a verdade dói. O Grêmio perdeu para o Mirassol. Não para o líder disparado do Brasileirão, não para uma máquina montada a peso de ouro, mas para um time que briga para não cair, que ocupa a zona de rebaixamento, que tem orçamento de clube de bairro comparado ao Tricolor. E perdeu jogando mal, perdeu sem competir, perdeu do jeito que ninguém, nem o mais pessimista dos gremistas, esperava depois de um mês inteiro de preparação. Onde estava a vantagem do descanso, Luís Castro? Onde estava o tal ganho físico que os dezesseis dias de férias deveriam ter proporcionado a um elenco que o senhor mesmo dizia estar sobrecarregado?
Há poucas semanas, quando este espaço ousou apontar que o Grêmio simplesmente não havia planejado o calendário, que soltar o elenco por mais de duas semanas no meio da temporada era um tiro no pé competitivo, a resposta foi a previsível fúria de sempre. Quem criticou foi chamado de alarmista, de não entender de futebol, de estar torcendo contra. Pois aqui está o resultado da suposta genialidade do planejamento gremista: um time que voltou pior do que saiu, mais lento, mais desorganizado, mais frágil do que estava antes do intervalo. A pergunta que não quer calar é simples e é dessas que incomodam quem vive de empurrar a real para debaixo do tapete. Se o problema era mesmo falta de tempo de treino, como o próprio Castro reclamava insistentemente antes da pausa, por que o time voltou pior depois de ganhar exatamente aquilo que pedia?
Na entrevista após a derrota, Castro foi só eufemismo. Falou em “prestação que não nos prestigia minimamente”, em “passos atrás preocupantes”, em uma equipe que “se apaga” durante o jogo. Traduzindo do gremialês para o português claro, o time jogou mal, muito mal, e o próprio treinador não soube explicar o motivo. Ele comparou o desempenho contra o Mirassol com o amistoso anterior diante do Cruzeiro e admitiu, sem cerimônia, que a equipe competiu mais numa partida de preparação do que numa rodada valendo três pontos. Convenhamos, isso não é detalhe técnico, é confissão de que algo estrutural não está funcionando. Um time que compete mais num amistoso do que numa final disfarçada de rodada de campeonato tem problema de cabeça, não de perna. E problema de cabeça não se resolve com mais dias de férias, pelo contrário, se agrava.
O treinador ainda tentou justificar a escalação trocando Monsalve por Riquelme na lateral, alegando maior capacidade ofensiva do substituto. Discussão técnica legítima, ninguém aqui vai fingir ser especialista em opção tática de flanco. Mas convenhamos que trocar uma peça no time não explica um coletivo inteiro que se rendeu sem luta a um adversário em situação de desespero na tabela. O discurso de Castro sobre o bloco defensivo que “não se mostrou eficaz” e sobre a dificuldade de “chegar à frente após a recuperação” é a descrição impecável de um time sem identidade, sem padrão, sem aquilo que qualquer torcedor tricolor exige minimamente em troca da paciência histórica que o clube sempre teve com seus comandantes.
E agora, caro leitor, chegamos à parte em que a ironia deste colunista se torna quase profética. Porque em algum momento, e não vai demorar, surgirá de novo o discurso da falta de tempo. Vai aparecer a desculpa do calendário apertado, da viagem para jogar em altitude, do desgaste da lista de competições. Pois fica registrado aqui, com data e hora, que esse discurso morreu antes de nascer. Não houve falta de tempo. Houve um mês inteiro de preparação e o resultado foi pior do que antes da pausa. Quem quiser repetir a cantilena da falta de tempo vai precisar antes explicar por que o tempo que sobrou não serviu para absolutamente nada.
Castro ainda falou sobre o próximo desafio, a partida em altitude contra a Liga equatoriana, tratando o compromisso com o peso e a seriedade que a dimensão do clube exige. Isso é elogiável, é preciso reconhecer quando o discurso acerta o tom. Só que discurso bonito não ganha jogo, e o torcedor gremista já está cansado de coletivas emocionantes seguidas de atuações sem alma dentro de campo. O próprio treinador hierarquizou as prioridades, colocando o Brasileirão em primeiro lugar, a Copa do Brasil em segundo, a Sul-Americana em terceiro. Ótimo, é sensato, é o que qualquer analista recomendaria. Mas hierarquizar competição no discurso não adianta nada se o time nem sequer aparece para competir contra quem está no fundo da tabela.
Fica a pergunta que Luís Castro precisa responder, e não com eufemismo de coletiva, mas com resultado dentro de campo. Se o problema não era tempo de treino, porque agora ficou provado que não era, qual é então o problema real? Escalação, entrosamento, método de trabalho, motivação, hierarquia dentro do vestiário? O torcedor tricolor não quer mais explicação, quer solução. E o tempo para apresentá-la, esse sim, está se esgotando de verdade.





