Arthur entrou, o Grêmio acordou e o Santos foi para casa derrotado

Vou ser direto, como sempre fui. O Grêmio da primeira etapa deste sábado, diante do Santos, na sua Arena, foi uma coleção de intenções mal resolvidas, de uma equipe que parecia ignorar que existia um adversário em campo disposto a ganhar. A torcida vaiou. E fez bem em vaiar. Não por maldade — por memória. Por amor ao clube, que é uma coisa completamente diferente do aplauso fácil que alguns confundem com apoio.

Mas aí veio o intervalo. E aí veio Arthur.

O que a primeira etapa nos ensinou: que improvisação tem limite

Luís Castro, num gesto que fica entre a coragem e a teimosia, insistiu em Noriega no meio-campo como se isso fosse uma convicção filosófica. Não era. Era um equívoco. O Grêmio jogava sem eixo, sem quem costurasse as linhas, sem quem desse ao time aquela sensação básica — mas rara — de que a bola tem um destino ao sair dos pés de quem a recebe.

O Santos não precisou fazer grande coisa para marcar. Bastou que o Grêmio errasse, como errou Caio Paulista num rebote de escanteio que deveria ter sido controlado por qualquer profissional acima da média. A bola chegou a Miguelito, chegou a Gabigol, e o placar indicou o que o jogo já dizia: 1 a 0 para o visitante.

A reação veio. Carlos Vinícius, que nesta noite mostrou que ainda tem mais a entregar do que seus críticos admitem, empatou numa jogada de velocidade puxada por Amuzu. Mas o empate não mudava o diagnóstico: o Grêmio jogava em partes, em fragmentos, como uma orquestra sem maestro que, de vez em quando, acerta a nota certa por instinto.

Arthur entrou. E o Grêmio passou a ter uma alma.

É aqui que a crônica esportiva precisa ser honesta — porque a vagabundagem intelectual no futebol é tão danosa quanto fora dele. A entrada de Arthur, no início do segundo tempo, no lugar de Noriega, foi a decisão mais acertada que Luís Castro tomou na noite. Ponto. Sem asterisco.

Com Arthur em campo, o Grêmio ganhou o que todo time precisa e poucos dirigentes têm a coragem de admitir que é insubstituível: alguém que pensa antes de tocar. Alguém que sabe onde a bola vai antes de recebê-la. O meio-campo parou de ser um campo minado e passou a ser um corredor de passagem. A equipe respirou. Pavon encontrou espaços que antes estavam bloqueados pela desorganização dos próprios companheiros. Enamorado, que erraria feio logo depois, ainda teve fôlego para participar antes de ser substituído.

Quem quiser negar o papel de Arthur nesta virada que explique, com dados ou com argumento, o que aconteceu de diferente. Eu fico aguardando.

Gabigol marcou duas vezes. E o Grêmio precisou responder duas vezes. Paciência, torcedor.

Não vou romantizar o que não foi romântico. O Santos, com Cuca no banco — um técnico que sabe montar uma equipe, independentemente do que alguns pensam — voltou a marcar logo no início da segunda etapa. Enamorado errou na saída, Escobar avançou, Bontempo ajeitou, Luis Eduardo escorregou como se o gramado fosse de gelo, e Gabigol, frio como sempre foi nos momentos que importam, fez o segundo dele.

Dois a um para o Santos. A Arena gelou.

Mas o Grêmio, desta vez, não demorou para responder. Pavon — que precisa que se reconheça aqui sua noite consistente e sua participação direta em dois gols — voltou pela direita, cruzou com intenção, e Carlos Vinícius dominou e finalizou com a categoria de quem sabe que está sendo observado. Dois a dois. O VAR confirmou o que os olhos já diziam.

Tetê, a emoção que ninguém esperava e todos precisavam ver

Há momentos no futebol que transcendem a tática e a estatística. Este foi um deles.

Tetê entrou pressionado. Entrou carregando nas costas o peso de atuações apagadas, de uma torcida que já o colocava na lista dos que “não entregam o esperado”. Recebeu a bola. Ajeitou de peito. Ganhou o passe de Pavon — sim, Pavon outra vez — e bateu colocado, com aquela elegância tensa de quem precisa acertar e sabe disso.

A bola entrou.

E Tetê chorou.

Que ninguém ouse chamar isso de fraqueza. Um homem que chora após marcar o gol que vira um jogo que o próprio clube precisava ganhar não é fraco — é humano. E o futebol, quando não está sendo reduzido a negócio puro, ainda tem espaço para isso.

O que fica: uma vitória imperfeita que vale mais do que parece

O Grêmio não jogou bem os noventa minutos. Isso é fato. Mas também é fato que reagiu duas vezes à desvantagem no placar, que encontrou no intervalo a correção que a primeira etapa exigia, e que terminou a noite com três pontos que abrem uma diferença de três compridos pontos sobre o Santos — agora o primeiro time dentro da zona da degola.

Luís Castro ainda tem muito a ajustar. Mas a entrada de Arthur no segundo tempo foi um acerto que precisa ser reconhecido sem ambiguidade. Não porque o treinador seja um gênio — ainda cedo para isso —, mas porque errar e corrigir é o mínimo que se espera de um profissional no seu nível.

A Arena foi ao delírio no final. Merecia.

O Grêmio encerrou três rodadas sem vencer. E fez isso, sobretudo, porque alguém lembrou que o meio-campo não é enfeite.

Chama-se Arthur.

 

Foto: ID Foto Clube

 

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Wagner Andrade
Wagner Andradehttps://realnews.com.br/
Eu falo o que não querem ouvir. Política, futebol e intensidade. Se é pra sentir, segue. Se é pra fugir, cala.

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