A primeira vez que Karymy Gonçalves ouviu a palavra “siririca”, ela tinha cerca de 11 anos e veio de um menino na escola, numa piada. Ela foi pra casa curiosa, perguntou pra mãe e recebeu só um “não é nada demais, é besteira”. O assunto morreu ali. Mas a curiosidade não.
Para celebrar o mês da masturbação, o Sexlog foi conversar com Karymy, ilustradora paulistana e autora do livro “A Vida Secreta da Siririca”, para entender como ela chegou até esse assunto e o que mudou na relação das mulheres com o próprio prazer.
“Fui falar com amigas, fui buscando uma resposta palpável, e quando veio, veio de meninos, como piada, como algo que era motivo de chacota”, lembra ela. Anos depois, essa memória virou o ponto de partida de um livro inteiro. “A Vida Secreta da Siririca” nasceu na pandemia, entre a yoga, uma dança aprendida em casa e muita introspecção, e chegou às livrarias independentes em 2023 como um convite: o de finalmente falar sobre o que sempre aconteceu, mas nunca foi dito em voz alta.
Um silêncio com função
O tabu em torno da masturbação feminina não é coincidência. Entre os séculos XIX e XX, a sexualidade das mulheres foi frequentemente medicalizada, e desejos fora do esperado eram enquadrados como “histeria feminina”. A anatomia completa do clitóris, órgão central no prazer das mulheres, só foi descrita com mais precisão no fim dos anos 1990.
Para Karymy, esse silêncio sempre teve uma função bem clara. “O prazer feminino sempre foi guardado a sete chaves porque ele é um fator muito grande de liberdade. Muitas mulheres antigamente casavam muito cedo e nem entendiam como lidar com o próprio corpo. Muitas tiveram filhos sem nunca ter tido um orgasmo”.
Esse cenário começou a mudar no século XX, com pesquisas como os relatórios Kinsey, a revolução sexual e os movimentos feministas, que foram reposicionando o prazer feminino como parte do bem-estar e da autonomia. Em 1995, a demissão da médica Joycelyn Elders nos Estados Unidos, após defender que a masturbação poderia ser abordada na educação sexual, acabou se tornando um marco simbólico: maio virou o mês da masturbação.
A descoberta que não tem prazo
Ao lançar o livro, Karymy esperava que o público fosse de mulheres jovens. Mas o que ela encontrou foi diferente. As mais novas, por vezes, ainda sentiam vergonha de pegar o livro na mão. Quem chegava com mais entusiasmo eram mulheres de 45, 50 anos, muitas com histórias de divórcio e autodescoberta tardia.
Uma delas ficou folheando o livro em silêncio, virou pra Karymy com o olho cheio d’água e disse que não ia levar. “Eu não sei se é vergonha ou falta de permissão própria.” A frase ficou. “Aquela pessoa, mesmo sem comprar, me chamou muito mais atenção do que quem comprou. O quanto a gente não se permite”.
Esse movimento, diz ela, aparece em gerações diferentes por caminhos distintos. “As mulheres mais novas estão colocando a masturbação na rotina como uma prática de autocuidado. As gerações anteriores ainda estão nesse caminho de autoconhecimento, às vezes com aquela sensação de querer correr atrás do tempo perdido“.
Para Mayumi Sato, CMO do Sexlog, a transformação mais importante é essa: as mulheres passaram a se reconhecer como protagonistas do próprio desejo. “Quando uma mulher entende o próprio corpo, seus limites, suas fantasias e o que realmente desperta desejo, ela ganha repertório para viver a sexualidade com mais liberdade, inclusive nas relações com outras pessoas”.
O prazer que começa na imaginação e termina sem culpa
Karymy destaca que o estímulo visual padrão, o pornô feito por e para homens, raramente é o caminho para a maioria das mulheres. “Eu sempre senti muito tesão lendo. Lendo contos, histórias que despertavam minha criatividade para outro lugar. A criatividade é a primeira faísca de liberdade. Ninguém tá ali dentro da nossa cabeça julgando o que a gente tá pensando”.
Esse comportamento aparece também no consumo dentro do Sexlog, onde as mulheres têm demonstrado mais interesse em narrativas, áudios, contos eróticos, podcasts e lives. “Existe uma diferença entre consumir estímulo e construir desejo. Muitas mulheres se conectam mais com histórias, vozes e personagens do que com uma imagem isolada”, explica Mayumi.
Sobre a culpa que ainda acompanha tudo isso, Karymy tem uma posição clara. “A gente é ensinada que qualquer coisa diferente que a gente faz é errado. Mas vai com culpa mesmo. Depois você vai lidar com essa culpa. Não deixe de viver porque você acha que vai se culpar depois“. E conclui: “Me tocar é um ato de liberdade. Uma vez na nossa vida, algo ser só sobre a gente. Não sobre o outro. Que é um egoísmo muito saudável..

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