A educação brasileira não vive uma crise de ocasião. Vive uma crise de estrutura, de método, de continuidade e, muitas vezes, de coragem administrativa. O país ainda convive com resultados preocupantes em avaliações internacionais: no Pisa 2022, o Brasil registrou 379 pontos em matemática, 410 em leitura e 403 em ciências, desempenho abaixo da média dos países da OCDE. Não é detalhe técnico. É o retrato de uma dificuldade nacional que atravessa governos, redes de ensino e gerações de estudantes.
Também não se está falando de um sistema pequeno, simples ou fácil de administrar. Segundo o Censo Escolar 2024, a educação básica brasileira reuniu 47,1 milhões de matrículas em 179,3 mil escolas. É uma máquina gigantesca, complexa, desigual e permanentemente pressionada por problemas sociais que chegam todos os dias à porta da sala de aula.
É nesse cenário, nada romântico e pouco generoso, que se deve olhar para Canoas.
A Prefeitura de Canoas apresentou um conjunto de medidas para o encerramento da greve dos professores, recusado pela categoria em assembleia realizada na tarde desta quinta-feira, 23 de abril. Com isso, a paralisação segue impactando direta e indiretamente toda a rede municipal, composta por cerca de 30 mil alunos, e suas famílias.
O fato está dado. Há greve. Há impasse. Há prejuízo à rotina escolar. Há famílias afetadas. Há estudantes fora da normalidade das aulas. E, numa área em que o Brasil já perde demais, cada dia de paralisação tem peso real.
Mas há também outro fato, igualmente importante: a Administração Municipal não está parada. A Prefeitura permanece mobilizada para reduzir os prejuízos à comunidade escolar e garantir a retomada das aulas o mais breve possível. E isso, no Brasil de hoje, não é pouco.
O pacote de ações apresentado inclui a criação de um grupo permanente de trabalho para discussão das pautas da categoria, a ampliação do vale-alimentação, a aplicação do piso nacional do Magistério a partir de maio e a reposição salarial de 4,26%, parcelada até o final do ano, entre outras medidas.
Pode-se discutir se a proposta é suficiente. Pode-se discutir ritmo, prioridade, impacto orçamentário, alcance e expectativa da categoria. Isso faz parte do debate democrático. O que não parece razoável é ignorar que há uma proposta concreta sobre a mesa.
E aqui convém escapar da armadilha fácil. No debate público brasileiro, quase tudo vira torcida. Ou se demoniza a gestão, ou se demoniza a categoria. Ou se trata a greve como crime moral, ou se trata qualquer reivindicação como verdade absoluta. A vida real é mais difícil do que isso.
Professor precisa ser valorizado. Aluno precisa estar em aula. Família precisa de previsibilidade. Gestão pública precisa fazer conta. E a cidade precisa funcionar.
Governar é justamente lidar com esses conflitos sem fingir que eles não existem.
Desde o início do movimento, segundo a nota, a gestão mantém diálogo aberto com o sindicato e com representantes dos profissionais da educação, com a realização de reuniões formais e atendimentos diretos aos grevistas pelo prefeito Airton Souza e pela secretária de Educação, Beth Colombo.
Esse ponto merece atenção. Diálogo, em política pública, não é enfeite de discurso. É método. E, quando uma administração se dispõe a manter reuniões formais, atender grevistas diretamente e apresentar medidas, ela assume um caminho mais trabalhoso, porém mais responsável, do que simplesmente empurrar o conflito para adiante.
A paralisação afeta diretamente o cotidiano das famílias, especialmente daquelas que não têm com quem deixar os filhos durante o período sem aulas, o que também impacta a rotina de trabalho de pais e responsáveis. Esse é o lado da greve que muitas vezes aparece pouco no debate público: a escola não é apenas um espaço de aprendizagem. É também uma estrutura essencial de organização da vida familiar.
Quando a aula para, a cidade sente.
O prefeito Airton Souza foi direto ao ponto: “O nosso compromisso é com as crianças, com as famílias e com o futuro da cidade. Respeitamos o direito de manifestação, mas é fundamental avançar para evitar mais prejuízos aos alunos”.
A frase é institucional, claro. Mas não é vazia quando colocada ao lado das medidas já anunciadas e das ações implementadas pela gestão nos últimos 18 meses.
Segundo a nota, a atual administração adotou medidas voltadas à qualificação da educação municipal e à valorização dos profissionais. Entre elas estão a contratação de 500 monitores de inclusão, sendo 250 com início previsto para a próxima semana; a realização de concurso público; a garantia do vale-alimentação; a retomada das eleições para diretores; a correção de descontos de aposentados; e a manutenção do auxílio-transporte, mesmo após a implantação do Passe Livre.
Também houve o retorno de vice-diretores em escolas que não contavam mais com esse suporte, além de investimentos em tecnologia e melhorias na estrutura da rede municipal.
Não é pouca coisa.
Em um país acostumado a grandes discursos sobre educação e pequenas entregas na prática, medidas assim precisam ser reconhecidas. Contratar monitores de inclusão é cuidar de quem mais precisa de suporte. Realizar concurso público é fortalecer a estrutura permanente da rede. Retomar eleições para diretores é valorizar a comunidade escolar. Corrigir descontos de aposentados é fazer justiça administrativa. Manter auxílio-transporte, mesmo após o Passe Livre, é preservar uma política concreta de apoio aos profissionais.
E aqui está o ponto central: Canoas não precisa ser vendida como uma ilha de perfeição para merecer elogio. Não é isso. Nenhuma rede pública está livre de problemas. Nenhuma gestão resolve, em poucos meses ou anos, passivos acumulados ao longo de décadas. Mas há diferença entre uma gestão que apenas administra a crise e uma gestão que tenta enfrentá-la.
Canoas, neste episódio, parece escolher o segundo caminho.
O prefeito reforça: “Avançamos em pautas importantes da educação e seguimos abertos ao diálogo. Nosso foco é garantir que os estudantes retornem às salas de aula com o menor impacto possível”.
É uma posição correta. E mais: é uma posição necessária.
A educação nacional vive um momento em que não há espaço para irresponsabilidade. O Brasil já desperdiçou tempo demais. Já aceitou resultado ruim demais. Já naturalizou desigualdade demais. Quando uma criança perde aula, ela não perde apenas conteúdo. Perde rotina, vínculo, convivência, segurança e oportunidade.
Por isso, a greve deve ser tratada com respeito, mas também com senso de urgência. O direito de manifestação existe e deve ser preservado. Mas o direito dos alunos à educação também existe e não pode ser tratado como detalhe lateral.
A Administração Municipal afirma que permanece aberta ao diálogo e à construção de soluções responsáveis e equilibradas, que contemplem a valorização dos profissionais sem comprometer o direito dos alunos à educação. Essa é, talvez, a síntese mais adequada do desafio.
Valorizar professores e garantir aula não são objetivos inimigos. São partes da mesma obrigação pública.
O Brasil, infelizmente, ainda debate educação muitas vezes pelo caminho errado: muita palavra de ordem, pouca análise; muita indignação seletiva, pouca responsabilidade; muito diagnóstico repetido, pouca execução. Canoas oferece, neste momento, um exemplo mais interessante: reconhece o conflito, apresenta medidas, mantém diálogo e tenta preservar o interesse maior da comunidade escolar.
É evidente que há impasse. É evidente que a categoria tem suas reivindicações. É evidente que a Prefeitura ainda precisará negociar, explicar, ajustar e construir saídas. Mas também é evidente que a gestão municipal tem pontos positivos a apresentar.
E eles não devem ser escondidos.
Numa conjuntura nacional em que a educação pública carrega tantos déficits, Canoas dá sinais de esforço administrativo. Não se trata de aplauso automático. Trata-se de reconhecer o que está funcionando, cobrar o que ainda precisa avançar e impedir que o debate seja sequestrado pela lógica do “tudo ou nada”.
O copo não está cheio. Mas também não está vazio.
Há propostas. Há ações. Há investimentos. Há medidas de valorização. Há preocupação com os alunos. Há tentativa de diálogo. Há uma gestão que, diante de uma crise concreta, decidiu se mover.
E, na educação pública brasileira, mover-se na direção certa já é algo que merece ser dito com todas as letras.







