Dizer que a inflação está “sob controle” no Brasil de hoje é desses exercícios de cinismo estatístico que ofendem mais do que convencem. Em março de 2026, o IPCA ficou em 0,88% e acumulou 4,14% em 12 meses. Muito bem. Palmas para a planilha. Agora voltemos ao país real: só a alimentação no domicílio subiu 1,94% no mês, com tomate em alta de 20,31%, cebola de 17,25%, batata-inglesa de 12,17% e leite longa vida de 11,74%. Eis a diferença entre o índice que o governo recita e a conta que a dona de casa paga.
É claro que sempre aparece um sacerdote da tecnocracia para explicar que o IPCA é uma média. Sim, é uma média. E daí? O brasileiro não faz compra em média. Ele compra comida de verdade, com salário de verdade, num mercado de verdade. Quando os itens básicos disparam, pouco importa que o número agregado fique mais comportado. Ninguém alimenta filho com conceito metodológico. Ninguém frita abstração no almoço. A média pode até servir ao economista. Mas o caixa do supermercado desmente o discurso oficial com uma crueldade que dispensa seminário. A própria explicação do IBGE deixa claro que o índice reúne uma cesta ampla de bens e serviços; o problema começa quando essa média vira instrumento de propaganda para negar a experiência concreta de quem vive espremido.
Em São Paulo, a cesta básica chegou a R$ 883,94 em março, a mais cara do país. E o trabalhador que recebe salário mínimo precisou comprometer 42,30% da renda líquida só para comprá-la. Só a cesta. Nem se falou ainda em aluguel, luz, gás, remédio, passagem, material escolar ou qualquer outro capricho subversivo, como continuar vivo com um mínimo de dignidade.
Falemos então do salário mínimo, esse monumento nacional à insuficiência. Em 2026, ele foi fixado em R$ 1.621. Já o salário mínimo necessário calculado pelo DIEESE para uma família de quatro pessoas alcançou R$ 7.425,99 em março. Traduzindo do economês para o português claro: o piso legal mal arranha o custo real da sobrevivência. O resto é malabarismo doméstico, endividamento e humilhação parcelada.
É aí que mora a indecência. Não em divulgar indicador econômico — isso é obrigação de qualquer governo. A indecência está em transformar dado agregado em peça de propaganda, como se a inflação oficial bastasse para anular a inflação sentida. Não basta. Nunca bastou. Quando a comida sobe mais do que a renda, o país empobrece, ainda que o discurso oficial saia perfumado da gráfica.
O poder público faria melhor se trocasse a euforia pela franqueza. Admitisse que a alimentação segue castigando o orçamento popular. Reconhecesse que o número bonito da macroeconomia não entra no carrinho. E abandonasse essa tentação infantil de ensinar o povo a duvidar menos da propaganda estatal do que do preço que ele vê na gôndola.
Porque, no fim, a inflação mais escandalosa talvez nem seja a dos alimentos. Seja a da embalagem. Infla-se a narrativa, infla-se o marketing, infla-se o triunfalismo. E, quanto mais cresce a propaganda, mais minguam a credibilidade e a paciência de quem trabalha para comer.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil







