Cristian Wasem entra no foco de investigação sobre omissões no enfrentamento às enchentes

Convém pôr as coisas em seus devidos lugares, até para que a linguagem não seja sequestrada pelo cinismo, essa especialidade de certas administrações públicas quando o desastre bate à porta. Enchente é fenômeno da natureza. Descaso administrativo, não. Alagamento pode decorrer da chuva. A conversão da chuva em devastação ampliada, em cidade inerme, em equipamento inoperante, em dinheiro público desperdiçado e em população entregue à própria sorte já pertence a outra categoria: a da responsabilidade política.

Segundo documentos oficiais mencionados pela atual administração de Cachoeirinha, o município teria sido deixado sem a devida estrutura de prevenção durante a gestão do ex-prefeito Cristian Wasem. Não se trata, note-se, de mera divergência retórica entre grupos políticos, daquela troca de adjetivos que costuma substituir o pensamento. O quadro descrito é objetivo: ausência de obras de contenção, casas de bombas sem condições adequadas de funcionamento, falhas na destinação de resíduos e entulhos, além da necessidade de devolução de aproximadamente R$ 700 mil em recursos do Fundo Estadual de Defesa Civil do Rio Grande do Sul em razão da não execução das ações previstas.

E aqui cabe a pergunta que as consciências burocraticamente anestesiadas detestam: que nome se dá a uma gestão que recebe recursos, não executa o que precisa ser executado, deixa estruturas essenciais sem operar e, ao fim da linha, entrega ao sucessor não uma máquina pública, mas um inventário de omissões? Ineficiência? Ah, não exageremos na delicadeza vocabular. Há horas em que o eufemismo se transforma em cumplicidade semântica.

Porque não estamos falando de perfumaria administrativa, de um canteiro mal podado ou de uma praça com tinta descascada. Estamos tratando de defesa civil, de prevenção, de proteção da cidade contra eventos climáticos que já não podem ser tratados como surpresa metafísica, castigo dos céus ou capricho das nuvens. Há muito os fenômenos extremos exigem planejamento, engenharia, coordenação e seriedade. Quem administra um município e age como se tudo isso fosse opcional não governa: terceiriza o destino coletivo ao acaso. E o acaso, como se sabe, não disputa eleição, não assina empenho e não presta contas.

A coisa se torna ainda mais grave quando, além da precariedade estrutural, surgem menções a indícios de irregularidades e possíveis desvios sob observação de órgãos de controle interno. Aí já não se está apenas diante da velha e desmoralizada incompetência. Surge no horizonte algo mais denso, mais escuro, mais ofensivo ao interesse público: a suspeita de que, em meio à emergência, possa ter havido quem enxergasse na calamidade não uma urgência humana, mas uma oportunidade administrativa. É o tipo de degeneração moral que transforma o sofrimento alheio em ambiente de negócios. E isso, evidentemente, precisa ser apurado com o rigor da lei, não com a preguiça dos compadres.

Também impressiona o que se relata sobre a ausência de remoção adequada de entulhos e resíduos deixados pelas enchentes, inclusive materiais acumulados em estrutura municipal e destroços provenientes de moradias atingidas. Porque o poder público, nesses casos, não lida apenas com paisagem urbana degradada. Lida com saúde pública, com risco sanitário, com insegurança estrutural, com humilhação cotidiana de famílias que já perderam quase tudo e ainda são obrigadas a conviver com os vestígios materiais da omissão estatal. O entulho, aqui, não é apenas físico. É também administrativo e moral.

Há, claro, o rito institucional. O ex-prefeito terá direito ao contraditório e à ampla defesa, como deve ser em qualquer Estado de Direito digno desse nome. Isso não é gentileza; é princípio civilizatório. Mas uma garantia fundamental não pode ser usada como biombo para relativizar a gravidade dos fatos narrados. Investigar não é perseguir. Cobrar explicações não é fazer espetáculo. Dar nome ao desastre administrativo não é “politizar” a tragédia; é, ao contrário, recusar que a política seja absolvida justamente onde ela mais falhou.

A criação do Comitê Municipal de Governo e Resiliência Climática, segundo a gestão atual, indica ao menos o reconhecimento de que a cidade não pode continuar refém da improvisação. Melhor assim. Mas que ninguém se iluda: comitê não é sacramento redentor. Sem execução, sem obra, sem cronograma, sem transparência, sem responsabilização e sem inteligência administrativa, qualquer colegiado corre o risco de virar apenas uma solenidade com ata.

No fim, a questão essencial permanece. O poder público existe para mitigar vulnerabilidades, não para ampliá-las. Existe para antecipar riscos, não para descobrir a realidade depois que a água invadiu as casas. Existe para proteger a população, não para devolver recurso por incapacidade de uso. Quando uma gestão falha nesses pontos elementares, já não se está diante de um acidente da administração. Está-se diante de um método da incúria.

E método, nesse caso, é só um nome mais elegante para o abandono.

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Wagner Andrade
Wagner Andradehttps://realnews.com.br/
Eu falo o que não querem ouvir. Política, futebol e intensidade. Se é pra sentir, segue. Se é pra fugir, cala.

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