Mais uma vez, a gestão Cristian Wasen e João Paulo no radar: caso do sumiço de até R$ 11 milhões do FUNDEB vai à Polícia Federal

Há cidades em que a política é um debate sobre futuro. E há cidades em que a política vira perícia. Cachoeirinha, neste instante, está mais para a segunda hipótese. Cristian Wasem e João Paulo Martins foram cassados em janeiro de 2026 por infrações político-administrativas, e o que se vê desde então não é apenas o fim de uma gestão: é o levantamento, camada por camada, do entulho institucional deixado por ela.

O caso do FUNDEB é exemplar porque reúne o pior da degradação administrativa brasileira: soma alta, dinheiro carimbado para educação, indícios pesados e uma sequência de documentos oficiais que sugerem que a máquina pública passou tempo demais olhando para o lado. Um memorando de 20 de março fala em divergência de R$ 7.741.644,72 entre valores informados ao SIOPE e os constantes na conta vinculada ao fundo. Outro, de 9 de abril, menciona indícios graves de irregularidades e um possível desaparecimento de valores que podem sair da casa de R$ 8 milhões e ultrapassar R$ 11 milhões. Quando verba da educação infantil e básica entra nesse nevoeiro, não estamos diante de mera “inconsistência contábil”. Estamos diante de um escândalo em potencial.

Eis o ponto que fere a inteligência do eleitor: não se trata de uma suspeita caída do céu nesta semana. O próprio memorando de março registra ausência de apuração conclusiva desde agosto de 2023. Quer dizer: havia alerta, havia tempo, havia obrigação de agir. Se a apuração agora ganha urgência máxima, com determinação de auditoria específica, intimação de ex-gestores e comunicação à Polícia Federal e ao DERCAP, é porque a fase do “vamos ver isso depois” bateu no muro da realidade. E a realidade, nesse caso, tem cifra milionária.

Não deixa de ser espantoso — embora já não surpreenda ninguém — que a política local tente se comportar como se nada tivesse acontecido. Cristian e João Paulo foram cassados. Não renunciaram por delicadeza republicana. Não saíram porque acharam melhor “dar espaço ao novo”. Foram derrubados por decisão política formal da Câmara, com perda de mandato. E, no entanto, a engrenagem do poder insiste em reaparecer com nova embalagem, como se a troca do rótulo resolvesse o problema do conteúdo.

É nessas horas que o cinismo do poder testa os limites da sociedade. Aposte-se no esquecimento, na confusão deliberada, na fadiga moral do cidadão comum. Faz-se de conta que cassação é detalhe, que investigação é fofoca de adversário, que milhões da educação podem evaporar no idioma burocrático dos memorandos sem produzir indignação duradoura. E, no entanto, é justamente o contrário: cada documento novo torna mais difícil vender a fantasia de que tudo não passa de perseguição, exagero ou histeria de oposição. Os papéis estão aí. A cronologia está aí. A gravidade está aí.

Convém lembrar o essencial, para que ninguém troque prudência por amnésia: investigação não é sentença. Suspeita não é condenação. Todo investigado tem direito ao devido processo legal e à ampla defesa. Mas também convém lembrar o que muita gente tenta apagar: prudência jurídica não obriga ninguém à cegueira moral nem ao analfabetismo político. O povo não precisa esperar o trânsito em julgado da História para perceber quando um grupo já ofereceu evidências mais do que suficientes de desorganização, abuso e risco institucional.

No fundo, Cachoeirinha está diante de um teste bem simples, embora politicamente dramático. A cidade vai tratar a cassação de Cristian e João Paulo como um acidente de percurso, desses que se resolvem com a troca do motorista mantendo o mesmo ônibus, ou vai entender que há momentos em que a democracia precisa recusar a reincidência disfarçada?

spot_img
Wagner Andrade
Wagner Andradehttps://realnews.com.br/
Eu falo o que não querem ouvir. Política, futebol e intensidade. Se é pra sentir, segue. Se é pra fugir, cala.

Publicidade

Publicidade

spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
- Conteúdo Pago -spot_img

Publicidade