A comunicação líquida e certa

O mundo contemporâneo é rápido em tudo. O fluxo de informações nas redes sociais cria demandas superlativas que exigem adaptações geracionais, tomadas de decisão e priorizações que desafiam os afetos e a saúde mental. Acostumado a produzir conteúdo com meus referenciais ideológicos e psicanalíticos, venho procurando ser o mais breve possível. O desafio é fazer com que as narrativas não se tornem descartáveis ou superficiais.

Venho observando, desde a pandemia, o quanto temos um sintoma social de falta de foco e muita dispersão nas alteridades, seja no campo pessoal, seja no profissional. É muito recorrente enviarmos um convite, um flyer ou uma informação e, ainda assim, termos que reafirmar do que se trata, quando será e onde acontecerá, mesmo quando tudo já está dito.

Talvez, paradoxal e inconscientemente, exista uma demanda por atenção afetiva e personalizada. No entanto, essa demanda não tem recebido espaço prioritário. Tenho aprendido, principalmente com os mais jovens, uma regra “ética” de ser objetivo e de não fazer ligação direta, algo que era muito usual, sobretudo para quem é ativista e produtor cultural, como eu.

O sintoma social decorrente do excesso de vida virtual não poupa ninguém, em diferentes níveis, faixas etárias, grupos ou classes sociais. Isso vem acarretando diagnósticos comportamentais como o “burnout digital”, referente à permanência excessiva nas telas em função do apelo à produtividade online, com fadiga física, mental e emocional.

Além disso, observam-se humor irritadiço, insônia e menor rendimento escolar, especialmente entre crianças e jovens. Também vivemos o medo de não acompanhar atualizações, em uma compulsividade ansiosa conhecida como síndrome de FOMO (Fear of Missing Out).

No trabalho clínico, com referencial psicanalítico, buscamos traduzir, na escuta, o que Freud postulou como a dupla função dos sintomas: “ocultar e revelar o inconsciente”. Na singularidade das narrativas, as compulsões à repetição demandam traduções simbólicas que passam pela escuta e pela palavra.

Esse tempo lógico, e não cronológico, pode facilitar a pausa necessária para romper com repetições que nos causam os mais variados sofrimentos na modernidade neoliberal, da pressa, do trabalho e do amor líquido, como dizia Zygmunt Bauman.

Pais compulsivamente digitais precisam se reposicionar diante desse comportamento, para que possam ser modelos mais saudáveis de identificação para os filhos. O ECA Digital, que surge para proteger, pode também gerar uma vacância que talvez precise ser substituída, pulsionalmente, por escuta literal, olhar e carinho nas relações familiares.

Como analista, abrir cadeias significantes faz parte do trabalho com o sofrimento psíquico, e suas repetições permitem um fazer diferente, mais afinado com o desejo. Permanentemente, exercito uma escuta bem lacaniana, sem pressa interpretativa, atento às formações do inconsciente, com o desejo do analista, e não com a pretensão de ser alguém “a facão”.

Bem, como a regra do jogo passa por muitos vácuos nas comunicações, com uma economia da palavra escrita ou falada, restam-me adaptações. Ainda bem que meu saudoso “eu analógico” ainda tem espaço em bons papos com amigos, que muito nos salvam da solidão da economia digital. Como me disse o saudoso Claudinho Pereira, grande DJ e homem da comunicação: “Como é bom poder falar contigo, Gaio, pois tudo anda muito descartável e superficial!”

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Gaio Fontella
Gaio Fontellahttps://realnews.com.br/category/opiniao/blog-do-gaio/
Gaio Fontella – Psicólogo e psicanalista, graduado e pós-graduado pela UFRGS. É comentarista e produtor do canal Café com Análise, no YouTube, e atua como coordenador da ONG Desafios, em Porto Alegre.
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