As guerras em várias instâncias

Qual é o nexo entre as guerras e nossos embates cotidianos? Essas reflexões passam por uma escuta clínica psicanalítica que não se aliena dos conflitos sociais.

Freud deixou claro que, no exercício clínico, não teríamos uma psicanálise desconectada do mundo. Por isso, quando um analisando traz reflexões sociais, isso deve ser escutado com atenção.

Lacan postulou que o Real convoca nossos sintomas. Assim, as guerras externas, no cotidiano e no mundo, também se enlaçam com nossos conflitos afetivos, com as lutas políticas, com nossas posturas e com a forma como lidamos com os sofrimentos associados.

Quando Freud afirmou que a pulsão de morte estava ligada à nossa inclinação para as guerras, ele não estava desconsiderando os interesses políticos, econômicos e a luta de classes, como chegou a apontar parte da crítica marxista.

Ao trazer essas questões para o setting terapêutico, na livre associação, o sujeito em análise também poderá falar de suas beligerâncias, de suas preocupações econômicas, de seus desejos e daquilo que não lhe dá paz.

No plano macropolítico, as bombas e os ataques são grandes atos de destruição, marcados pela pulsão de morte, que sustenta o gozo pelo poder, com o risco dos eternos revanches que atravessam a história.

No nosso dia a dia, nas alteridades, tenho me perguntado o que fazer com agressões, com palavras projetadas e injustas que muitas vezes enfrentamos. Ter os benefícios de anos de análise nos dá uma garantia maior de percepção de nosso eu, muito além do campo projetivo e imaginário com que o outro nos rotula.

Quando não nos reconhecemos em uma narrativa externa, em opiniões incompatíveis com o reconhecimento mais amplo de quem somos e com nossos predicados já reconhecidos, o que fazer? Desconvencer o outro exigiria um sacrifício que nem sempre ele está, narcísica e subjetivamente, disposto a fazer. Portanto, resta-nos o reposicionamento, seja com familiares, parcerias de luta, colegas de trabalho ou amigos.

Eu, que sempre aposto na palavra, na fundamentação que deve sustentar a crítica e a autocrítica, venho aprendendo que o ato de afastamento e de silêncio também pode ser providencial para não perder conquistas fundamentais que adquiri: autoestima e paz.

Não há preço para a paz, nem apreço verdadeiro por ela quando se foge dos bons combates. Não podemos aceitar a transfobia de Ratinho contra a deputada Erika Hilton, que o está processando e exigindo providências junto ao Ministério Público.

Também não há paz, mas omissão, no alienamento diante do crescente feminicídio. Por outro lado, a trégua no jogo partidário de poder revelou um valioso gesto de apaziguamento no consenso do parlamento gaúcho, que aprovou um pacote de medidas para enfrentar a violência contra as mulheres.

Esse bom combate, expresso no momento de pacífica união dos deputados gaúchos na guerra contra o feminicídio, deve servir de exemplo a todo o país. Com união e apoio no enfrentamento à misoginia e à ignorância biologizante que restringe as feminilidades, ganha força também o protagonismo de Erika Hilton contra os “Ratinhos de laboratórios transfóbicos”.

Como analista, estou sempre disposto a escutar as queixas para que se transformem em demandas e dissolvam imaginários que nos oprimem, apostando que uma nova relação com a linguagem, de preferência sem berros — ainda que, por vezes, sejam pedidos de socorro —, pode nos conduzir à continuidade da busca pela realização dos desejos, paulatinamente agraciada por harmonia e por uma paz espiritual que não seja passiva.

A passividade diante de abusos recorrentes pode estar calcada no medo ou em uma posição masoquista; seja qual for o caso, nada deve culpabilizar a vítima. Considerando as questões objetivas e subjetivas presentes no enfrentamento de todas as violências, precisamos de políticas públicas intersetoriais e interdisciplinares.

Se um mundo sob o clima de uma terceira guerra não nos toca, falta-nos o princípio de realidade para fazermos o que for possível: escolhas mais pacíficas, sem passividade, de nossos dirigentes, atenção aos seus alinhamentos e cuidado em nossas guerras diárias, buscando na palavra firme e elegante a melhor arma.

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Gaio Fontella
Gaio Fontellahttps://realnews.com.br/category/opiniao/blog-do-gaio/
Gaio Fontella – Psicólogo e psicanalista, graduado e pós-graduado pela UFRGS. É comentarista e produtor do canal Café com Análise, no YouTube, e atua como coordenador da ONG Desafios, em Porto Alegre.
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