A goleada sofrida no último Gre-Nal foi dolorida, mas, acima de tudo, esclarecedora. Mais do que um tropeço em clássico, o resultado escancarou dúvidas que já vinham sendo levantadas sobre a ideia de time titular do Grêmio. Não se trata de oportunismo por causa da derrota. A análise vai além do placar e olha para o que vem pela frente. Desde o início do Gauchão, o Tricolor foi elogiado, mas sempre com a ressalva de que o nível da competição mascara problemas. Quando o grau de exigência aumenta, as fragilidades aparecem — um roteiro conhecido de outras temporadas e que não pode se repetir em 2026, especialmente com um elenco que, no papel, é superior e empolga o torcedor.
A derrota no clássico machucou, mas pode servir como um divisor de águas se a comissão técnica e a direção souberem interpretar os sinais. O Gre-Nal mostrou claramente onde o Grêmio perdeu o jogo. O meio-campo foi o principal problema: faltou combatividade, retenção de bola e criação. A dupla de volantes formada por Arthur e Tiago não oferece poder de marcação, e isso abriu um buraco à frente da defesa, facilitando as investidas do rival. Esse é um ajuste urgente para Luís Castro pensando no Brasileirão. A entrada de Dodi, por exemplo, não seria um retrocesso, mas sim uma correção necessária para dar mais equilíbrio ao time.
Na armação, o filme se repete. Cristaldo volta a ser decisivo no Gauchão, mas some quando o nível sobe. Em clássicos, os números falam por si: nove Gre-Nais, nenhum gol. Desde 2023, quando viveu seu melhor momento ao lado de Suárez, o meia não conseguiu manter regularidade. Hoje, sua permanência no time passa muito mais pela falta de opções no elenco do que por convicção técnica. E isso é perigoso. O Grêmio não pode seguir apostando em um jogador que não se firma, especialmente em uma posição tão estratégica. Buscar reforço para o setor virou obrigação.
Com o meio-campo desajustado, os problemas se espalharam. A defesa sofreu, principalmente pelo lado direito. Marcos Rocha é útil, mas precisa de mais proteção. Sem ajuda do volante e do ponta, virou alvo fácil para Carbonero e Bernabei. Isso desorganizou a zaga, forçando Noriega a sair da posição e abrindo espaços que Borré soube explorar. Tanto a lateral-direita quanto o zagueiro pelo lado direito seguem em aberto, ainda mais considerando a maratona de jogos que se aproxima.
Os próximos jogos dirão se o Grêmio aprendeu com o clássico. Contra o Fluminense, já é exigida uma resposta imediata, não só em nomes, mas em postura. No Gre-Nal, o Tricolor entrou sem a intensidade necessária, aparentando um salto alto incompatível com o tamanho do jogo. O Inter, com fome e gana, foi superior do início ao fim — e o 4 a 2 acabou até econômico pelo que apresentou em campo. Se o alerta foi entendido, o Gre-Nal pode ficar para trás como um ponto de virada. Se não, o preço a pagar na temporada será alto.
Foto: Ricardo Duarte



