Há um tipo de mudança que não vem em discurso inflamado nem em promessa de campanha. Ela aparece no detalhe — no jeito de organizar a casa, de tratar a base do clube, de enxergar a Arena não só como cenário, mas como ativo. É nesse território, menos barulhento e mais decisivo, que a nova gestão do Grêmio começa a dar sinais claros de para onde quer levar o Tricolor.
Na quinta-feira, 22 de janeiro de 2026, o Grêmio anunciou que lançará, na manhã de sexta-feira (23), um modelo inédito no futebol brasileiro: pacotes de ingressos customizáveis, nos quais o torcedor escolhe quais jogos quer assistir na Arena.
Pode parecer “apenas” uma nova forma de vender entrada. Não é. É uma afirmação de conceito: o torcedor deixa de se encaixar no produto e o produto passa a se adaptar ao torcedor.
Sob a liderança do presidente Odorico Roman, com Antonio Dutra Junior vice-presidente e Alex Leitão como CEO, a impressão é de que o Grêmio tenta fazer algo raro por aqui: alinhar a paixão com método. Há uma aposta explícita em profissionalização e previsibilidade — duas palavras que, no futebol brasileiro, ainda soam como luxo.
O desenho do pacote não é cosmético. Para o Campeonato Brasileiro, há opções de cinco, dez ou 19 jogos. Na Copa Sul-Americana, o pacote cobre as três partidas da fase de grupos. Sócios têm valores diferenciados e preferência, e não sócios também entram no jogo — com outra precificação, como é natural em qualquer política séria de relacionamento.
O que isso revela? Antes de tudo, uma leitura realista da vida do torcedor. Nem todo gremista consegue — ou quer — estar em 19 jogos do Brasileiro. Há trabalho, distância, custo, filhos, compromissos. Ao permitir a escolha, o Grêmio reconhece o óbvio que muitas direções fingem ignorar: fidelidade não é obrigatoriedade. Você fortalece o vínculo quando respeita a rotina de quem sustenta o clube.
E aí entra outro ponto que não dá para subestimar: a parceria com a Ingresse. Ela não aparece como “marca no rodapé”, mas como parte de um pacote maior de modernização — venda, acesso, soluções digitais e, principalmente, inteligência de dados para entender hábitos, demandas e comportamento do público.
No anúncio do acordo, o próprio Odorico toca num tema sensível e estratégico: a Arena como plataforma de negócio e experiência. Ao falar em potencializar exploração comercial e enriquecer a relação com o torcedor a partir de práticas modernas de arenas, a gestão sinaliza que não está tratando bilheteria como “arrecadação de ocasião”, mas como política estruturante de receita e pertencimento.
Tem ainda um detalhe que, na prática, decide se uma boa ideia vira hábito ou vira irritação: o processo. A informação de que quem já tem cadastro no ambiente da Arena não precisará criar uma conta nova parece pequena, mas é enorme. Fricção derruba conversão. Burocracia expulsa. Quando um clube simplifica o caminho, ele demonstra respeito — e respeito é uma das moedas mais valiosas nessa relação.
Claro: ingressos não ganham campeonato. Mas clubes organizados ganham tempo, margem de manobra e capacidade de investimento. E, num futebol em que a diferença entre competir e sobreviver muitas vezes é financeira, iniciativas como essa dizem muito sobre a mentalidade de quem está na cadeira.
A nova direção do Grêmio parece compreender que gestão não é só decidir; é desenhar sistemas. Sistemas que facilitem a vida do torcedor, aumentem previsibilidade de receita, qualifiquem a experiência de estádio e construam dados para decisões futuras — do marketing à operação, do sócio-torcedor à ocupação de setores.
No fim, o que está em jogo é o seguinte: quando o clube trata o torcedor como parte do projeto — e não como cliente de última hora — ele melhora a Arena, melhora a receita e melhora o ambiente. A novidade dos pacotes customizáveis é um gesto simples, mas carregado de mensagem: o Grêmio quer voltar a pensar grande também fora das quatro linhas.
E isso, num futebol brasileiro tão viciado no improviso, merece registro — e elogio.
Foto: Ducker



