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TRANSBUS cobra R$ 4,5 milhões e a “herança” da gestão cassada aparece em papel timbrado

Há uma espécie de justiça poética — ou de escárnio administrativo — quando um prefeito é cassado e, mesmo assim, continua governando a cidade. Não com caneta, claro. Governa com boleto. Em Cachoeirinha, o ex-prefeito Cristian Wasem, cassado, parece ter deixado um legado que dispensa memorial: basta abrir a caixa de entrada.

A Prefeitura foi notificada nesta terça-feira pela TRANSBUS, cobrando uma dívida estimada em R$ 4,5 milhões. Sim, você leu certo: milhões. Não é aquele atraso “burocrático” de quem esqueceu o comprovante. É um passivo com cara, corpo e cheiro de “depois a gente vê”.

A explicação — sempre elegante, sempre asséptica, sempre redigida como se a realidade pudesse ser neutralizada por uma oração subordinada — é a de praxe: “valores não quitados na gestão anterior”, “obrigações financeiras assumidas”, “repasses não integralmente honrados”. Notou? Ninguém diz “calote”. Ninguém diz “irresponsabilidade”. Ninguém diz “gestão temerária”. No Brasil, quando falta dinheiro, falta também vocabulário. A língua é sempre mais generosa com os culpados do que com as vítimas.

O mais curioso é que a notificação apenas formaliza o que já vinha sendo “discutido nos bastidores”. Bastidores, nesse caso, é a palavra educada para “todo mundo sabia”. E quando todo mundo sabe, mas ninguém resolve, temos o nome técnico: empurrar com a barriga. A diferença é que barriga de Prefeitura tem limite. E, quando estoura, estoura no colo do contribuinte — essa criatura mítica que paga, mas não manda.

Agora entra a fase solene do ritual: setores “técnico e jurídico” vão “examinar”, “avaliar a legalidade”, “apontar encaminhamentos”. Repare como a administração pública adora verbos que não comprometem ninguém com nada. Analisar é ótimo: é o único esporte em que você pode correr sem sair do lugar.

Só que há um detalhe que transforma essa história em algo mais do que contabilidade: o contrato é de transporte coletivo. Ou seja, serviço essencial. E serviço essencial no Brasil funciona assim: quando está tudo bem, ninguém dá bola; quando dá errado, a população vira refém e a política finge surpresa. A conta de R$ 4,5 milhões não é apenas um número. É o tipo de passivo que pode virar desculpa para tudo: para precarizar, para renegociar, para ameaçar corte, para aumentar tarifa, para terceirizar culpa. A dívida vira instrumento. E o cidadão? Sempre o objeto.

A TRANSBUS ainda não se manifestou publicamente. Não precisa. Quem precisa falar — e falar com clareza, sem “gestão anterior” como mantra exorcista — é a Prefeitura: vai pagar? Vai contestar? Vai auditar? Vai apontar responsáveis? Vai explicar por que uma gestão que acabou cassada conseguiu deixar heranças malditas com esse tamanho e essa naturalidade?

Porque, veja: o prefeito caiu. A cidade, não. A cidade ficou. E ficou com a parte mais brasileira da política municipal: a certeza de que a irresponsabilidade tem aposentadoria precoce — mas a dívida tem vida longa.

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Wagner Andrade
Wagner Andradehttps://realnews.com.br/
Eu falo o que não querem ouvir. Política, futebol e intensidade. Se é pra sentir, segue. Se é pra fugir, cala.
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