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“Viver a Vida” e o retrato do Brasil real: inclusão, culpa e amadurecimento em cena

Desde a morte do escritor Manoel Carlos, eternizado como o autor das “Helenas”, muitos telespectadores voltaram a revisitar suas obras. Entre elas, Viver a Vida (2009) se destaca por abordar temas sociais e familiares que marcaram o Brasil daquela época — e que, em muitos aspectos, permanecem atuais.

A trama revelou e consolidou talentos. Um dos grandes destaques foi Klara Castanho, como Rafaela ainda criança na época, cuja atuação chamou atenção do público e da crítica. Hoje, a atriz segue brilhando na televisão e no cinema, confirmando o potencial demonstrado ainda na infância.

A novela inicia em uma favela do Rio de Janeiro e, ao longo da narrativa, acompanha a trajetória de uma família de classe média alta, evidenciando contrastes sociais e emocionais. No centro da história está Luciana, interpretada por Alinne Moraes, filha de Marcos, personagem de José Mayer — um empresário sedutor, conhecido por seus relacionamentos com modelos. A família ainda conta com Tereza, vivida por Lílian Cabral, e outras duas irmãs que, embora menos evidenciadas, também desempenham papéis importantes no drama familiar.

O conflito central se intensifica quando Marcos decide se relacionar e se casar com Helena como Tais Araujo, a protagonista da história, uma modelo bem-sucedida que luta para manter a família e sustenta financeiramente muitos à sua volta. A relação provoca forte reação em Luciana, a filha mais mimada do pai, que se sente traída e rejeitada. Em um gesto simbólico, ela comparece vestida de preto ao casamento, demonstrando sua revolta.

Helena decide encerrar sua carreira nas passarelas e passa a atuar apenas como fotógrafa. Antes disso, pede ao produtor que organize um último desfile internacional, na Jordânia, e insiste para que Luciana também participe, numa tentativa de reconciliação. A viagem, no entanto, termina em tragédia. Após uma discussão intensa entre as duas, Helena pede que Luciana volte no ônibus da equipe. No capítulo 46, ocorre o acidente que deixa Luciana paraplégica — uma revelação feita de forma gradual, recurso narrativo típico de Manoel Carlos.

A partir desse ponto, Helena passa a ser responsabilizada pelo ocorrido, enquanto Luciana enfrenta o maior desafio de sua vida: aceitar a nova condição e reconstruir sua identidade. Ao longo da novela, o público acompanha a transformação da personagem, que abandona o comportamento mimado e passa a lutar por autonomia, dignidade e sentido para a vida.

Além da trama principal, Viver a Vida se destaca por abordar outros temas sensíveis, como o alcoolismo, os transtornos alimentares — incluindo a bulimia — e o preconceito racial. A trajetória de Helena, uma mulher negra em posição de destaque no mundo da moda, evidencia as barreiras enfrentadas mesmo após o sucesso profissional.

Outro elemento marcante da novela foram os depoimentos reais exibidos ao final dos capítulos, reforçando a conexão entre ficção e realidade — uma assinatura de Manoel Carlos que emocionou e conscientizou o público.

Disponível no Globoplay, Viver a Vida permanece como uma obra sensível, atual e necessária. Um legado que reafirma a importância de Manoel Carlos para a teledramaturgia e para a cultura brasileira.

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Leilane Beck
Leilane Beckhttp://pensereal.com
Jornalista independente, baseada em evidências, múltiplas fontes e contexto histórico.
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