Pois é, queridos: lixo não é metáfora. Lixo tem cheiro. Lixo tem mosca. Lixo tem rato. Lixo tem doença. E lixo, quando se acumula nas ruas, vira um tipo de “voto” involuntário: é a população dizendo, sem querer, que o poder público perdeu o básico.
Evidentemente, não foi Cachoeirinha que “decidiu” entrar em colapso na limpeza urbana. O colapso, pelo que os documentos indicam, tem assinatura administrativa: uma Prefeitura que reconhece o serviço, recebe nota fiscal, registra o compromisso e… não paga. Aí está a anatomia do fiasco.
Vamos ao que interessa, porque conversa mole é especialidade de quem administra por slogan.
A gestão do ex-prefeito Cristian Wasem encerrou o mandato deixando uma dívida de mais de R$ 4,4 milhões com a empresa responsável pela coleta de lixo. Repito: mais de R$ 4,4 milhões. Não é “um atraso pontual”. Não é “um imprevisto”. É um padrão. Em 2024, R$ 1.524.135,24. Em 2025, R$ 2.948.400,16. Total: R$ 4.472.535,40. O número é indecente porque a consequência é indecente.

Perguntar não ofende: onde estava o prefeito enquanto a conta crescia mês após mês? Onde estava o senso de prioridade quando a obrigação era, literalmente, recolher o que apodrece na porta do cidadão?
E, antes que apareça o “pronto, é perseguição”, convém lembrar: não se trata de opinião sobre preferências políticas. Trata-se de gestão. De obrigação elementar. A coleta de lixo não é um luxo progressista nem uma pauta conservadora. É civilização mínima. Quem falha nisso não falha “um pouco”. Falha no alicerce.
Mais: o caso não vem sozinho. A mesma administração já convivia com cobrança pública da Transbus e ameaça de suspensão por dívida de R$ 2,3 milhões. Houve atraso de merendeiras, gente que trabalha para alimentar criança e ficou sem salário e 13º. Soma-se o déficit superior a R$ 30 milhões no IPREC, com o desfecho político conhecido: cassação do prefeito e do vice. Isso não é uma coleção de azares. É um modo de governar.
Há sempre o álibi clássico: “herança”, “crise”, “queda de arrecadação”, “nós fizemos o possível”. Ora, ora. O “possível” de um prefeito inclui pagar o contratado quando o serviço é prestado e a despesa é reconhecida. Se não há dinheiro, o prefeito não vira poeta. Vira gestor: renegocia, corta supérfluo, prioriza o essencial, presta contas com transparência e evita a bola de neve. O que não dá é empurrar com a barriga até a barriga da cidade estourar em sacos de lixo.
E aqui entra o ponto moral: a dívida pode até ser “da Prefeitura”, no papel. Mas o custo é do cidadão. É o comerciante que perde cliente porque a rua fede. É a mãe que passa com criança perto do lixo acumulado. É a equipe de saúde que vai tratar consequência do óbvio. É a Prefeitura seguinte, que recebe um abacaxi financeiro e um problema sanitário ao mesmo tempo. Gestão ruim é isso: transfere a conta e terceiriza o sofrimento.
Se os documentos mostram que os serviços foram executados, as notas emitidas e os valores formalmente reconhecidos, então estamos diante de uma pergunta ainda mais incômoda: por que não pagou? Falta de caixa? Falta de planejamento? Escolha deliberada de priorizar outras despesas? Em qualquer hipótese, a crítica é dura e necessária, porque nenhuma resposta inocenta a negligência com o básico.
O que Cachoeirinha precisa agora não é só mutirão de caminhão e retroescavadeira. Precisa de auditoria: cronologia dos empenhos, liquidações, ordens de pagamento, justificativas formais, quem assinou o quê, quando e por quê. Precisa de responsabilização institucional, nos órgãos competentes, se houver indícios de irregularidade. E precisa, sobretudo, de uma regra simples para o futuro: serviço essencial não pode ser tratado como gambiarra orçamentária.
No fim, sobra uma verdade brutal: Cristian Wasem pode até tentar enquadrar tudo como “narrativa” de adversário. Mas lixo acumulado não é narrativa. É evidência. E, como se vê, evidência tem cheiro.



