Há quem diga que a política brasileira tem alma dramática. Em Cachoeirinha, essa alma virou espetáculo completo: cenário, elenco, roteiro previsível e um clímax que apenas confirmou o que todos já sabiam. A cassação do prefeito Cristian Wasem e do vice delegado João Paulo Medeiros, selada nesta sexta-feira (2), foi menos um ato de justiça e mais uma coreografia institucional para dar verniz de rito ao que já era realidade política: um governo que acabou antes do mandato.
A sessão começou às 10h45 da manhã e só chegou à fase de votação às 23h10. Doze horas de discursos, recados indiretos, frases de efeito e sustentação jurídica que, no fim, não serviram para reverter o inevitável. O placar falou mais alto — como sempre fala. Foram 14 votos a 3 pela cassação de Wasem e 13 a 4 contra o vice. A base derreteu em público, e nem os mais fiéis conseguiram sustentar a tese do “golpe” diante da matemática implacável.
Técnico no rito, político no desfecho
A Câmara blindou-se com zelo cirúrgico: a presidente Jussara Caçapava se declarou impedida por ser beneficiária direta da sucessão. Suplentes foram convocados, vereadora impedida substituída, e a liturgia do processo foi cumprida à risca. Tudo para resistir à guerra judicial que, previsivelmente, virá depois. Afinal, no Brasil, a cassação raramente termina no plenário — ela apenas muda de palco e vai para o fórum.
As defesas jogaram com o que tinham. No caso do IPREC — o instituto de previdência municipal —, a narrativa das “pedaladas” de mais de R$ 20 milhões foi enfrentada com alegações de parcelamentos e aprovações legislativas. No caso do vice, a justificativa foi a emergência para contratar limpeza urbana sem licitação. Argumentos que até poderiam ser levados a sério, não fosse o fato de que o julgamento, ali, não era jurídico: era político. E política, todos sabemos, se resolve no voto, não na vírgula.
O fim de um governo de microfone
O episódio escancara uma falência que vai além da infração administrativa. O que se quebrou em Cachoeirinha não foi apenas a confiança legal, mas a viabilidade política. O governo Wasem tentou se manter de pé no discurso — e, por um tempo, funcionou. Mas discurso sem base vira ruído, e ruído não segura cadeira.
Quando até aliados abandonam o barco, quando vereadores da própria base votam pela queda, não há narrativa que salve. Não é conspiração, é consequência. Não é golpe, é desgoverno. A retórica da perseguição é sempre o último recurso de quem perdeu o plenário e tenta salvar a imagem na rede social.
E, ironicamente, a cassação ainda carrega efeito colateral: a inelegibilidade dos envolvidos, nos termos da legislação eleitoral, o que pode bloquear planos políticos futuros de Wasem e do delegado João Paulo por vários anos. Perderam o cargo — e talvez tenham perdido o horizonte.
E agora, o replay de sempre
Com a cassação, Jussara assume interinamente. A Justiça Eleitoral será comunicada, e o município entrará na contagem regressiva para uma eleição suplementar em até 180 dias. Um ciclo conhecido, como reprise de novela ruim: troca-se o elenco, mantém-se o enredo. Instabilidade, retórica, crise, nova aposta — e, não raro, nova frustração.
A pergunta que deveria mover a cidade continua sem resposta: quando Cachoeirinha vai deixar de viver no improviso político e passar a discutir, de verdade, governo, entrega e responsabilidade pública?
Porque enquanto a política local continuar obcecada com o fato do dia, quem paga a conta é o cidadão — que, mais uma vez, amanhece com um governo caído, uma cidade em compasso de espera e uma eleição pela frente. De novo.



